quarta-feira, abril 23, 2008

Semibreves

Europas dentro da Europa: o anel da Virgindade
Na Polónia é tempo de Primeiras Comunhões Católicas. No interior conservador (cerca de 10% da população) é oferecido, às meninas comungantes, um anel da Virgindade. Aos rapazes, consolas de jogos.
O que nos preocupa? Uma evidente questão de género: provavelmente o anel destina-se a ser substituído pelo anel de noivado e este pelo de casamento. Se não houver nem um nem outro terá de perdurar ad eternum no dedo da "Vieille Fille"? Mulheres argoladas para a vida: 5% da população polaca. Uma distinção discriminativa. Um presente gerador de possíveis hipocrisias.
Preocupam-nos também as formas institucionais europeias a construir para proteger minorias sociais. Os USA têm longa prática nesse campo. Há, no entanto, limites fluídos. A poligamia praticada por certos grupos tem vindo a ser denunciada porque proibida. Definir fronteiras entre o permitido e o proibido não é tarefa fácil. O mesmo problema coloca-se na delimitação entre a esfera do privado e a esfera do público. Em toda a Europa.
Tanto ainda a construir!

5 comentários:

Light my fire disse...

Percebo e subscrevo a primeira parte do seu post, sobre o anel e a discriminação que lhe está subjacente. Não entendo lá muito bem onde quer chegar com a segunda parte, nomeadamente quando diz que "a poligamia praticada por certos grupos tem vindo a ser denunciada porque proibida". Quer dizer que não seria denunciada se não fosse proibida? Olhe que tenho dúvidas.
A meu ver, a monogamia é hoje essencialmente definida por factores de ordem económica, mais do que cultural. Historicamente, mesmo nas sociedades onde a poligamia era aceite e praticada, aos pobres tal prática estava vedada por razões evidentes: o polígamo não estava apenas autorizado a ter várias mulheres, mas ficava também obrigado a sustentá-las.
Por outro lado, o facto de mesmo nessas sociedades a poligamia apenas ser tolerada para os homens resulta em grande parte, mas não exclusivamente, do carácter patriarcal das mesmas, do facto de a linhagem familiar, nas sociedades ocidentais, ser estabelecida pelo lado paterno - ao contrário do que sucede nas sociedades matrilineares. Que por sua vez, como se sabe, não são necessariamente sociedades matriarcais. Não sei se nalguma destas a poligamia feminina alguma vez foi socialmente aceite como prática comum. Mas, como você diz, as fronteiras entre o proibido e o permitido são muitas vezes muito difíceis de estabelecer.

Vera Santana disse...

Concordo com o que diz.
De facto, estava a referir-me concretamente a grupos muito fechados e apartados da vida social comum,grupos que, nos USA, praticam a poligamia. Soube, através de uma colega da Universidade de New York, que foi feito um levantamento destes grupos. Muitos destes casos de poligamia estão relacionados com o afastamento forçado das mulheres do exterior e com abusos praticados sobre adolescentes.

Outros grupos há, na vastidão dos States, que resolvem viver em grupos de Amor Livre. That´s another story.

Há ainda que reflectir sobre práticas poligâmicas de grupos sociais específicos, na Europa monogâmica. Permitir excepções (que vão incluir despesas de protecção social muito pesadas) ou proibi-las.

E agora, aproxima-se o dia em que, há 34 anos, a abertura nos trouxe esperanças.

Rui Pedro Nascimento disse...

Posso estar enganado, mas em relação à obrigatoriedade de sustento das mulheres nas sociedades polígamas, a questão não é bem assim. O que é obrigatório é tratá-las de forma igual, sem discriminação. O que leva a que a classe média é que não a possa praticar. Porque a regra é que o que se dá a uma tem de se dar às outras. Quem não tem nada para dar, não tem "problema".

Vera Santana disse...

Existe uma comunidade que pratica a poliandria, no Tibete. Vive na montanha, de agricultura de subsistência (e talvez de pastoreio). É o único caso de que tomei conhecimento, há alguns anos atrás.

As sociedades que praticam, como norma social, a poligenia, estão razoavelmente espalhadas por vários continentes.

Este contraste é interpelante.

Sempre que se fala de poligamia, em ambas as vertentes que toma (poliandria ou poligenia) está-se a descrever a norma social constitutiva de uma sociedade ou de uma comunidade), de um contrato social que, pelos laços do casamento, estabelece uma aliança entre duas familias, e não dos desvios sociais, sejam estes mais ou menos permitidos e/ou aceites, mais ou menos secretos ou periféricos.

Os fidalgos, nomeadamente em Lisboa, tinham as suas manteúdas "fora de portas". Na urbe vivia a família legal. Numa sociedade monogâmica, por razões sociais, económicas, políticas e demográficas.

Como mera hipótese acabadinha de inventar, a poliandria poderá estar relacionada com um objectivo colectivo de não expansão demográfica, em zonas de recursos naturais pobres.

Vera Santana disse...

... Julgo entrever, nalgum discurso masculino, um imaginário de tendência poligâmica, "modelo poligénico".

Essa tendência foi uma prática social, nas classes elevadas, e enquanto metade do mundo, as mulheres, dormiam e fechavam os olhos.

Meus senhores:o mundo feminino acordou, eyes wild open, e tem uma palavra a dizer. . . O imaginário masculino já não é Rei Absoluto. Tem de partilhar o poder com o Imaginário feminino, melhor, com vários Imaginários femininos.

Se a poligamia é cultural, era-o, até aqui, por definição masculina. E agora? A palavra é,também, das mulheres. Que dizem elas?

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