sábado, agosto 09, 2008

O enigma Liceu Francês

Há algum tempo que me questiono sobre "o que há de particular" (se é que há) nas afinidades ainda hoje sentidas e vividas pelos ex-alunos do liceu francês, entre si. Independentemente de termos sido coevos, alegramo-nos e sentimo-nos bem sempre que, num lugar de trabalho, num espaço académico ou político, ou em tempos de ócio, encontramos alguém que "também andou no liceu francês".

Não pretendo dar resposta à questão. Se calhar não existe resposta e a própria questão, se bem que colectiva, é subjectiva, tão subjectiva e colectiva quanto o Milagre de Fátima: só acreditam os que construiram essa realidade (a Igreja e alguns actores sociais como a Irmã Lúcia e António Salazar) e os que, mais tarde, acreditaram porque sim.

O enigma liceu francês tem quase a mesma idade do Milagre de Fátima (um pouco menos ...). Enquanto nós, ex-alunos, existirmos, inventaremos e reinventaremos essa realidade, dando-lhe objectividade. O social é uma construção, dizem Berger e Luckhman... ou "Natal é quando um homem (?!) quiser". Quando deixar de existir o último aluno do liceu francês, o enigma morrerá, ao contrário de Fátima, e graças a deus.

Creio ser este voluntarismo e a memória de um passado irrequieto, vivido tranquilamente entre a tradição dos costumes e a exploração das ideias novas que, juntos, fundamentam uma construção permanente da noção de "ex-aluno/as do liceu francês". Sobretudo quando outras construções sociais caíram com o muro de Berlim (e mesmo antes, em 56 na Hungria, em 68 em Praga) ou, mesmo em 1974/75, com as nacionalizações de empresas, com razão, umas, sem razão nem proveito, outras.

Não tenho respostas e, se calhar, a questão nem existe. Não estou, no entanto, sózinha. Transcrevo, para aqui, a percepção de Cristina Rodo, que retirei do seu blog.


ASPIRO A TER SERENIDADE PARA ACEITAR AS COISAS QUE NÃO POSSO MUDAR, CORAGEM PARA MUDAR AS QUE POSSO E SABEDORIA PARA PERCEBER A DIFERENÇA...

Segunda-feira, 7 de Julho de 2008

Faz amanhã três semanas que, por sugestão de um amigo e ex-colega, criei uma Network para os Antigos (alunos e professores) do Liceu Francês de Lisboa…Neste momento somos quase 600 membros, "vindos" de 37 países!!!Está a ser um sucesso estrondoso, tanto em termos de adesão como de participação no site …

Desde que sai de lá que não paro de me admirar com este fenómeno…Quando encontramos alguém que também lá andou, sentimo-nos como se reencontrássemos um amigo de infância. Perguntamos pelos outros, combinamos coisas, partilhamos histórias “d’anciens combatants”, como dizem os francius. ; )Tanto pode ser um antigo colega de turma como alguém que só conhecíamos de vista ou de nome, a quem nunca tínhamos sequer dirigido a palavra.Isto não acontece relativamente a nenhuma das outras “escolas” onde andei (IADE, Arco, etc…) nem nunca sequer ouvi pessoas que frequentaram outros sítios mencionar nada de parecido. Com excepção talvez para o Colégio Militar…

Vários dos meus amigos mais chegados também lá andaram, dou-me com alguns já vai para trinta anos… Aliás, entre os antigos alunos há imensos que continuam a dar-se, a manter contacto regular.

Os que não se dão, não perdem uma ocasião de combinar coisas, de se voltarem a ver…Ao jantar de comemoração dos 50 anos do Liceu acorreram (se não estou em erro) cerca de 1.500 pessoas… tiveram de alugar uma sala no pavilhão atlântico.Os que foram adoraram, os que não conseguiram ir tiveram pena…

Os que lá não andaram explicam isto dizendo que somos uma cambada de cagões, que temos a mania que somos especiais, que temos sempre de ser diferentes, que aquilo é uma escola elitista, etc, etc, etc…
Pôr um filho no Liceu Francês é uma decisão de peso, um compromisso com a sua escolaridade. Opta-se por um tipo de ensino, uma língua, etc. Há coisas importantes que se decidem em função disso.Eu, por exemplo, só “fugi” para Sintra porque o meu filho não entrou para lá. Se ele tivesse entrado eu provavelmente nunca teria saído (de Lisboa, claro… LOL).

Normalmente, quem entra, fica até ao fim. Claro que há excepções… pessoas que vão pra fora... que são “convidadas a saír” (naquele Liceu ninguém é expulso, parece mal… LOL)... A realidade é que, anos depois, até essas pessoas, algumas delas que odiaram lá andar, sentem carinho por aquela “casa” e pelos que lá andaram…
Acho no fundo que o Liceu Francês funciona como uma grande família… Há irmãos, primos, primos afastados... Que é como quem diz amigos, colegas, pessoas que nos habituámos a ver “por lá”. Até há pais, tios e padrinhos... professores, contínuos, senhoras do bar. Enquanto lá estávamos isso não parecia ter importância nenhuma, sentiamo-nos num liceu como outro qualquer.
Quando saímos o espírito de clã vem ao de cima. Criámos laços que nem sabíamos que existiam e que, cá fora, se tornam evidentes.
Não tenho, pessoalmente, nenhuma simpatia especial pelo povo francês, não mais do que por qualquer outro. Mas a sua cultura está entranhada em mim e os antigos alunos hão de sempre ocupar um lugar muito especial na minha vida.Penso que isto aconteça com quase todos nós...
É a este espírito, e a mais nada, que se pode agradecer todos os reencontros que se estão a dar neste momento ...

at 17:04
Labels: Divagações

Enigma, fenómeno, construção social, whatever, faz-nos escrever, pensar, polemicar, reencontrar. Se um dia se fizer um estudo sócio-psicológico sobre o tema ... reflectirei sobre a "característica inter-clasista" do liceu francês (auto-cito-me, pré-auto-questionando-me).

1 comentário:

Paulo disse...

Na verdade era um Liceu muito "sui generis"...Separação total entre a parte portuguesa e francesa...desprezo quase total entre as duas comunidades!!
Mesmo assim, adorei andar lá e grande parte dos meus amigos ainda são desse tempo!!
Para que saibam quem fala; o meu nome é Paulo Ramos e era da parte portuguesa de 1978 1982!!
Cumprimentos!!epugg

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