terça-feira, agosto 26, 2008

Resposta ao contraditório

Rui,

Desde que escreveste este texto que espero por uma boa oportunidade de te responder. Queria te dizer que é necessários que existam Marcos Fortes. E Nelson Évora. E Vanessas e Pedros e Saras. Que o desporto Olímpico não se resume à conquista de medalhas, nem à mentalidade ganhadora que referes.
Não pode. E não se pode argumentar que o desporto hoje é profissional, de que todos pagamos para que exista delegação olímpica. Fazê-lo seria não entender a ideia de que o desporto deve ser natural à existência humana nas suas diferentes dimensões. Para muitos importa a prática desportiva, para alguns a competição, para poucos as vitórias (outros ainda vagueiam entre esta tipologia).
É necessário ter em consideração estas dimensões para que o debate sobre as políticas de desporto em Portugal (existem?) possa ser prospectivo. Faz sentido pedir uma medalha ao Marcos Fortes? Claro que não. Mas a sua presença em Pequim possibilitou que um miúdo de 15 anos da Reboleira pense que pode ir a Londres em 2012. Isso já é uma vitória.
Entretanto, é necessário distinguir bem entre o que consideramos ser o desporto de manutenção, de prospecção e de competição (e dentro deste o de alta e o de média competição).
Desporto de manutenção deve ser o que é promovido individualmente com o propósito do desporto em si, da melhoria ou manutenção da nossa condição física. Deve ser essencialmente privado, se bem que possa ser promovido institucionalmente (pelo Governo, por Câmaras Municipais, Clubes desportivos, etc).
A dimensão prospectiva é o interface entre a prática desportiva casual e a competitiva; e devem existir mecanismos para bem identificar os que apresentam talento para o desporto de competição. Aqui a prestação institucional é mais premente, dos Clubes Desportivos e Câmaras Municipais ao Governo e às Universidades. Julgo que este interface ou não existe, ou não funciona ou não produz resultados.
Por fim, o desporto de competição deve funcionar com métodos e meios claros e definidos. Porque não construir um fundo desportivo (ou fundo olímpico) com dinheiro do Futebol (que também é desporto olímpico)? Podia-se taxar os jogadores a sério e essa contribuição ficaria anexada a esse fundo desportivo, para ser gasta no planeamento da actividade desportiva profissional. Outra ideia é a preparação de médio prazo, ou seja, em vez de se pensar apenas na olimpíada seguinte (Londres 2012) ter a capacidade de ambicionar mais além (2016). Isso significaria que teria de ser criada uma política desportiva e de recrutamento que permitisse captar novos valores (que terão 20 anos em 2016 e que agora estarão entre os 8 e os 12 anos) e não apenas que o trabalho se processe em quem já demonstrou capacidades (que é o que vai acontecer para 2012).
Temo que enquanto se pensar exclusivamente no futuro próximo, que enquanto não existir uma nova geração de dirigentes (desportivos e políticos) pouco se possa esperar, globalmente, do desporto em Portugal. É essa a mentalidade que tem de mudar, Rui; e não a de muitos atletas (mas isso já é outra conversa).

(Ah, comecei a escrever este texto com a intenção de remeter para a última crónica do Rui Tavares sobre o Marco Fortes algumas das minhas preocupações sobre política desportiva. Acidentalmente escrevi alguns parágrafos, mas não deixo de recomendar o Rui. Esta cada vez melhor).

1 comentário:

Rui Pedro Nascimento disse...

Aguenta que não vai cair em savo roto... A discussão continua dentro de momentos!

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