quarta-feira, agosto 06, 2008

Nota biográfica. Pessoal mas não só: política também. Os efeitos da slow-education.

Lycée Français Charles Lepierre à Lisbonne
Turma do 6º ano de Ciências (alíneas f, g, h) 1966/67

Neste local, construíram-se, a partir de meados do século passado, alguns fundamentos para um novo Portugal e para uma futura Europa. A tarefa iniciou-se nas barbas de Salazar que fechava a trémula pálpebra do olho esquerdo quando alguém mencionava o liceu francês (ou a Europa, "A Outra", A Estrangeira, Amada/Temida, no inconsciente colectivo peninsular) e prolongou-se por gerações, num tempo longo, como deve ser qualquer "slow-education". Fomos ensinados/as por um punhado de bons professores, tais como Rui Grácio (honrosamente expulso do ensino oficial, por ter ideias progressistas, foi nosso Professor de Filosofia e de Psicologia) e Ângela Montenegro Miguel (leccionava História). Partilhavamos, raparigas e rapazes, espaços e conversas, praticavamos a multiculturalidade, no convívio diário com colegas e professores de muitas nacionalidades, das três religiões do Livro e, ainda, de outros livros. Viviamos numa realidade vaga-m-e-n-t-e inter-classista. Uma Escola para a Vida e para o Futuro. Neste contexto, cedo fomos "cidadãos do mundo" e cada um aprendeu a sua canção; foram-se desenvolvendo consciências culturais, políticas e sociais polícromas. Um trágico acontecimento, em Novembro de 1967, iria mostrar cruamente que "o Rei ia nu . . . " (em Novembro próximo, evocá-lo-ei) e colocar muitos/as de nós, definitivamente, graças a deus, no campo do reviralho e no espaço das esquerdas.

Tinhamos, em 1967, 16/17 anos. Ao então 6º ano (cf. foto) do liceu, corresponde o actual 10º ano. A escolaridade obrigatória terminava na 4ª classe. Em Portugal, os alunos que não prosseguiam estudos apresentavam-se ao Exame da 4ª classe e ponto final (ou eventualmente seguiam a via das Escolas Comercial ou Industrial) ; os outros iam a Exame de Admissão aos Liceus (feminino ou masculino, pois sexo e género não se encontravam disjuntos mas os dois sexos, esses sim, em absoluto apartheid). Era a abstracta divisão classista nacional, a marcar, temprano, caminhos diversos e apartados, jamais cruzados, a não ser num futuro longínquo, caracterizado por bem definidos papéis sociais de classe, num previsível cenário onde uns seriam patrões e outros empregados, uns directores e outros dirigidos, uns quadros técnicos, outros amanuenses. Tudo estava, em Portugal, tom sobre tom, "no seu lugar", Fátima e o Milagre incluídos, e mesmo a cadeira manca que, no ano ulterior ao desta fotografia, desalojaria o seu velho e arcaico dono.

Não posso deixar de completar este quadro, acrescentando duas notas sobre tradicionalismo, nomeadamente o que está patente nos papéis sociais de género. Maria de Lurdes Modesto, à época uma muy ilustre senhora, dava aulas de culinária (muito novinhas, aprendemos a fazer court-bouillon e sobremesas várias e a apreciar amplamente o que degustavamos) só às raparigas, claro! A compostura do porte de alunas e alunos (cf. foto) bem como a respectiva genderização normativa, são dignas de análise: as meninas, sentadas e de costas direitas, estão de pernas inclinadas - jamais cruzadas! - e mãos juntas, no colo, quais "princesas elizabetes" (melhor, mães futuras de "princesas dianas ou tarejas"). As mais afoitas fisicamente - mais velhas, mais teen-agers - estão de pé, com sorrisos matreiros mas auto-contidas . . . Os rapazes, de pé ou acocorados - jamais sentados! - estão prontos para as lutas predadoras que os esperavam ao virar da esquina ventosa do liceu. E, last but not least, todos tinhamos farda! Farda semi-livre - com gravata / sem gravata; com collants ou com peúgas - mas farda! E não mascavamos pastilhas elásticas nem durante as aulas nem para a fotografia!

Num outro espaço cultural e educativo, secante a este, e que também fazia franzir a pálpebra salazarenta - a Academia de Amadores de Música - muitos de nós fomos alunos/as de música de Francine Benoît, o rosto visível do projecto musical-pedagógico de Fernando Lopes Graça, então na semi-clandestinidade, por Portugal adentro, a recolher Música Portuguesa com Michel Giacometti.

Bons tempos? Sim, porque eramos jovens e, de certo modo, privilegiados no que à Educação respeita. O país era cinzento e baforento mas os ares e as palavras de França e da Europa "estrangeiravam-nos", ao entrarem-nos, coloridos e plurais, pelos cortexes e hipotálamos adentro: o surrealismo, o dadaísmo, a psicanálise, o existencialismo e o par intelectual-amoroso que o incarnava, o cinema dos Cahiers, o nouveau roman, o expressionismo alemão, as literaturas proibidas (o neo-realismo e os seus opositores), as greves operárias, a noção antropológica de cultura, a École des Annales, os saberes musicais, as práticas das bandas (designavam-se "conjuntos") que se formaram e tocaram no ginásio do Liceu e dos grupos de teatro, e a vontade de fazer uma revolução, dançando... foram cultivando, slowly e pour toujours, várias gerações. Dobravamos a esquina ventosa do liceu com muito mundo dentro de nós e, como o Poeta, talvez antes de o poeta dar as suas palavras à rotativa, nós, cada um de nós era capaz de dizer não! de mil formas e de todas as cores.

E agora? Dançamos?
Une Valse à Mille Temps!

Nota: a separação entre Ensino Liceal e Ensino Técnico viria a ser objecto de revisão por Rui Grácio, enquanto Secretário de Estado do Ministério da Educação, em 74/75; a opção por uma das vias escolares passou a ser feita não aos 10 anos mas por volta dos 15 anos de idade.

7 comentários:

Mafarrico disse...

Bonita evocação. E, apesar de a foto estar em ponto pequeno, creio que reconheço a autora do post: a segunda menina das sentadas, a contar da direita. Acertei?

Rui Pedro Nascimento disse...

O meu avô foi porteiro no Liceu Francês...

Vera Santana disse...

Rui,

O teu Avô não era, por acaso o Senhor Abel?

Rui Pedro Nascimento disse...

Não. Raul...

Vera Santana disse...

Hum, não me lembro. Não deve ser do meu tempo (1956 a 1967/68). O Sr. Abel, sim, estou a ver a cara e o nosso esforço a contar-lhe ladainhas para conseguirmos sair, para café e cigarro, durante os furos.

Rui Pedro Nascimento disse...

Foi nos anos 70.

Vera Santana disse...

Claro. Era impossível eu não o ter conhecido.
Já acabaste as tuas férias?

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