terça-feira, junho 26, 2007

Algumas considerações acerca do Museu Berardo


Algumas considerações acerca do Museu Berardo

Ao contrário do que aqui referem, eu não considero que a abertura do recente Museu Berrado seja a «salvação da cultura nacional», marcando esta inauguração um antes e um depois na história da Arte em Portugal. Algumas pequenas considerações.

1. Em primeiro lugar estou totalmente de acordo com o Pedro Magalhães, quando refere, com outros casos de sucesso português (nomeadamente o de Serralves, mas podia ter também citado a Gulbenkian), que já havia arte contemporânea em Portugal antes do «comendador» ter aparecido. Mais, entendo que Sócrates queira retirar um importante beneficio político desta aposta «cultural», mas parece-me mais interessante associá-la ao conceito de complementaridade, que ao de salvadora da pátria.
2. Mas nem é esse o ponto que mais me aflige. Já o disse há tempos (num post algures no baú deste blogue) que aceitar todas as exigências do senhor Berardo era a estratégia errada. Isto porque, de uma assentada, destruiu o trabalho de 10 anos que o CCB tinha feito. Não nos esqueçamos que o CCB estava, paulatinamente, a inserir-se nas grandes redes culturais europeias e mundiais, sendo já considerado como stoping place das grandes colecções itinerantes mundiais.
3. Claro que este trabalho foi deitado ao lixo. E demorará outros 10 anos a recuperar, se é que alguma vez se consiga fazer, a boa reputação entretanto alcançada. Nenhum grande museu do mundo, publico, se «curva» perante a exigência de um privado. Imaginem lá o Metropolitan a esvaziar-se, a romper contractos já assinados, a hipotecar a sua liberdade artística e exploratória para ficar com o seu espaço preenchido na íntegra por uma qualquer colecção de um qualquer milionário nova-iorquino (independentemente do valor do milionário ou da sua colecção).
4. No máximo que se construa um novo museu para albergar a colecção. Aliás, como fazem as instituições privadas (ver, a titulo de exemplo, o Guggenheim de Nova Iorque)
5. Mas, repito, o pior foi que para existir o «Museu Bernardo» tivesse de se extinguir todo o projecto do CCB. Exemplifico com uma metáfora futebolística:
Imaginem que em vez de arte contemporânea o senhor Berardo tinha uma aquipa de futebol (como, parece, quer ter). Imaginem que, como não tinha estádio e tal, dissesse: “Tenho esta equipa e quero um estádio e instalações para ela poder jogar. É uma equipa de topo”.
O Estado, perante tal oferenda, oferecia o… Estádio da Luz!. Sem se importar que por lá já estivesse uma outra equipa que soubesse jogar à bola; ou que tivesse passado as últimas décadas a construir um nome para si, um nome reconhecível e de prestígio.
Podia ter posto o nova equipa no Jamor, ou ter construído um novo estádio, mas não. Teve de ocupar um em funcionamento. E em bom funcionamento.


É este o processo do «Museu Berardo»
Nada tenho, entenda-se, que exista em Lisboa um espaço expositivo com uma colecção do nível da agora posta ao nosso dispor. O que tenho contra é que deixe de ter CCB.
E ainda temos a questão dos subsídios que o MC já assumiu com a Fundação entretanto criada. Mas esse é tema para outro post (tema entretanto já abordado pelo Daniel Oliveira).

Concluindo: nada contra a colecção, pelo contrário, irei vê-a concerteza. Nada contra o senhor Berardo, que apenas quer se promover. Tudo contra a solução encontrada (que, pelo que sei, já levou à demissão de Mega Ferreira do CCB).
Não creio ser este um bom exemplo de se fazer política. nem todos os fins justificam todos os meios.

1 comentário:

Rui Pedro Nascimento disse...

1) Comparares o Metropolitan com o CCB é fantástico! Irreal, mas fantástico!
2) O CCB não é um Museu (âmbitos diferentes não se usam numa comparação)
3) O Estádio da Luz pertence a uma sociedade privada (logo também não serve para a comparação)
Dito isto, a colecção Berardo tem ou não tem valor? Independentemente do processo escolhido que realmente deveria ter sido mais ponderado e poderia ter levado em consideração as outras conquistas já alcançadas pelo CCB.

P.S. - Quanto à demissão do Mega Ferreira, se é uma má ou uma boa notícia volta a ser bastante discutível...

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