Mostrar mensagens com a etiqueta Memória. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Memória. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, julho 17, 2008

Esquecimento, Memória e Política



Passou recentemente (no dia 14) mais um aniversário da Revolução Francesa, momento primordial da nossa contemporaneidade social e política. Não o assinalámos aqui na Loja de Ideias, nem sei porquê. Esquecimento, talvez. Provavelmente. De tanto nos esquecemos nos dias de hoje...
Recebi, entretanto, uma intervenção de uma amiga sobre a revolta do povo de Olhão contra os invasores franceses. Poucos se recordarão do evento, e poucos são os livros de história que registam o acontecimento ou que lhe dotam da devida importância.
Isto vem ao encontro de uma reflexão larga sobre esquecimento e memória, sobre o que escolhemos, como colectivo organizado, preservar para o nosso futuro. E é grave que nos esqueçamos de assinalar (mais) um aniversário sobre o 14 de Julho de 1789, assim como é grave esquecermos o que o Povo de Olhão fez, há 200 anos...
A minha amiga teve a oportunidade de relembrar a Assembleia da República deste episódio. Ela chama-se Esmeralda Ramires e é deputada pelo Algarve. Esta foi a sua intervenção:



Portugal é hoje um país livre e democrático que é membro de pleno direito da União Europeia, a quem ainda recentemente deu um prestimoso contributo para a construção do Tratado Europeu, um instrumento de revitalização política, vital para este mundo globalizado em que vivemos. Mas Portugal é também um dos países mais antigos da Europa e que tem, entre as suas maiores riquezas, uma inolvidável História. É neste contexto que no ano em que se comemora o bicentenário da Guerra Peninsular, trago a esta Câmara, casa mãe da democracia, uma evocação histórica de uma parte da memória colectiva dos portugueses.

A memória do feito heróico e patriótico da povoação de Olhão durante a primeira invasão francesa, ao protagonizar duas verdadeiras epopeias, a sublevação contra os franceses e a viagem ao Brasil para informar a família real da expulsão dos invasores.

Saúdo os representantes democráticos do povo de Olhão, os descendentes directos de alguns dos seus heróis e todos os cidadãos e cidadãs que se encontram hoje aqui presentes.

Uma nação não se constrói de forma linear, por isso a sua História resulta da convergência de muitos factos e atitudes relevantes para o seu território e para o seu povo ao longo da sua caminhada e ainda das vicissitudes e dos diferentes contextos políticos, sociais, geográficos e antropológicos em que os mesmos ocorrem.

Não se pode esquecer ou ignorar a História, mas sim conhecê-la e compreendê-la, pois ela é a memória de um povo e um povo sem memória é um povo sem futuro.

É nesta senda que hoje, ao evocar o protagonismo histórico do Algarve, mais concretamente de alguns dos seus filhos, quiçá, mais audazes, o povo de Olhão, o faço, não numa atitude de patriotismo exacerbado e anacrónico, mas, numa dimensão de partilha, coesão e reconhecimento.

É uma evocação devida à povoação de Olhão. Á povoação sim, pois foram todos os homens, mulheres, jovens e idosos da então pequena aldeia, que no dia 16 de Junho de 1808, recusando-se a aceitar a submissão a uma soberania estrangeira, se sublevaram contra as tropas francesas, abrindo caminho para a sua expulsão do Algarve e escrevendo assim, uma página de patriotismo, coragem, audácia e coesão não só na História do Algarve mas também na História de Portugal.

Como Fernando Pessoa, escreveu num dos seus poemas: Eu sou do tamanho do que vejo e não do tamanho da minha altura.

Também aquele povo nunca se viu pequeno, diminuído ou limitado, talvez, porque, habituado como estava a lutar contra o mar exortava os medos e olhava em frente até onde o olhar já não alcançava.

Por isso não se quedou em quaisquer interesses de classe ou indecisões de outra natureza. Reagiram contra os invasores, responderam à chamada, armaram-se, organizaram-se, atacaram e defenderam-se, por terra e por mar, sofreram baixas, inclusive mortes, mas, com muita ousadia, muita coragem e porque não, com a sorte que protege os mais audazes, qual David contra Golias, venceram.

Foi uma sublevação que tendo tido o seu epílogo entre os dia 12 e 18 de Junho de 1808, se desenvolveu num contexto político, militar e social de que os historiadores nos têm dado conta, na perspectiva nacional. Falta, todavia, integrar nessa perspectiva os contextos e os factos ocorridos nas diferentes regiões e localidades deste país, para que a História seja mais fiel e justa para com os seus protagonistas.

E, no pequeno apontamento que aqui cabe fazer, recordo que após a grande excitação do povo, no dia 12 de Junho quando as Armas Reais foram destapadas, a revolta eclodiu no dia 16, quando o Coronel José Lopes de Sousa, Governador de Vila Real de Santo António, afastado de funções, ao ver o povo ler os editais a apelar aos portugueses para ajudarem os amigos franceses contra os espanhóis, reagiu rasgando o edital, acto aplaudido pela população que a seguir hasteou a bandeira nacional e tocou os sinos a rebate, convidando todos os patriotas dos campos e das freguesia circunvizinhas a tomarem parte na luta.

Estava iniciada a revolta que se materializou no dia 18 de Junho, quando o povo comandado pelo Capitão Sebastião Martins Mestre, enfrentou as forças francesas, num primeiro confronto por mar e depois por terra, na ponte de Quelfes e na Meia Légua e que culminou com a vitória dos revoltosos.

Só após a constatação da vitória, resultante da decisão inabalável dos olhanenses é que a classe aristocrática que constituía o poder administrativo regional, oportunisticamente adormecida, levantou igualmente o pendão da revolta estendendo-a a toda a província e juntos expulsaram os invasores do então Reino dos Algarves.

E, foram novamente os pescadores olhanenses que num pequeno caíque, de Bom Sucesso, seu nome se fizeram ao mar, rumo ao Brasil, para numa atitude de grande sabedoria informar a família real, o que teve como corolário a sua ascensão a vila, ficando assim a criação do concelho de Olhão indelevelmente ligado à insurreição contra os invasores franceses.

Efectivamente, perante a audácia e coragem daqueles homens que tinham vencido não só as tropas francesas, como os perigos do mar, desde a armada francesa, aos corsários e piratas e ainda a fome e a sede, o Príncipe Regente D. João, futuro D. João VI, agraciou o povo da aldeia de Olhão no Reino do Algarve com o título de Vila de Olhão da Restauração.

Mas não só, de acordo com os termos do Alvará Régio de 15 de Novembro de 1808, assinado no Rio de Janeiro, o Príncipe elevou-a à categoria de Vila, com todos os privilégios, liberdades, franquezas, honras e isenções, de que já gozavam as vilas mais notáveis do Reino de Portugal.

Senhor Presidente
Senhoras e Senhores Deputados

Ainda no âmbito da evocação à povoação de Olhão não podemos ignorar o futuro que aquela construiu em duzentos anos. Desde logo da concessão do título de Vila à delimitação do seu Termo, decorreram 18 anos de grande perseverança e combatividade até que em 1826, D. Pedro reconheceu o Termo de Olhão como concelho com as freguesias de Olhão, Pechão, Quelfes, Moncarapacho e Fuseta.

Entretanto registou um crescimento populacional de 5 mil para 45 mil habitantes, a par de um desenvolvimento que teve sempre subjacente uma atitude de liberdade, coragem, coesão, empreendedorismo e ambição, escrevendo continuamente a História, como o fez na defesa da causa liberal, ao lado de D. Pedro IV, lutando contra tudo e contra todos ou ainda para a implantação da República.

E, não poderia deixar de dar algumas notas sobre algumas das características mais relevantes de Olhão, designadamente a extasiante paisagem da Ria Formosa, de que Olhão é a capital. E citando o poeta João Lúcio, um dos filhos de Olhão, que tão bem soube interpretar o Algarve e o seu clima, as suas paisagens e as suas gentes, no seu poema “ O Algarve” ,

“Oh meu ardente Algarve impressionista e molle,
Meu lindo preguiçoso adormecido ao sol,
Meu Louco sonhador a respirar chimeras,
Ouvindo, no azul, o canto das espheras…”

E ainda dar uma nota sobre os seus padrões culturais que são únicos e que resultam do contacto de várias culturas, nomeadamente a árabe-islâmica, que conferiu aos olhanenses uma mundo vivência de que são exemplo a arquitectura cubista, as suas açoteias, os seus mirantes, as suas estreitas e sinuosas ruas, ou mesmo as suas lendas, de que destaco a Floripes e o menino dos olhos grandes.

Paisagens e mistérios que tão bem foram descritos por Aquilino Ribeiro no Guia de Portugal, por Raul Brandão, nos seu escritos sobre “ Os Pescadores”, por António Sérgio, na História de Portugal por Manuel da Fonseca nas suas “Crónicas Algarvias”, ou por Miguel Torga e ainda cantados por Zeca Afonso, de que cito esta quadra, que hoje se adequa:

O Vila de Olhão
Da Restauração
Madrinha do Povo
Madrasta é que não

Outra dimensão não menos importante da hoje cidade de Olhão, tem sido a sua capacidade de se desenvolver de forma harmónica, sem se descaracterizar, mantendo a traça, mantendo as tradições e as suas actividades económicas da pesca, de que o seu importante porto é exemplo, do marisqueio e da industria conserveira ao mesmo tempo que se abre às novas tecnologias ligadas ao mar, bem como ao turismo.

É, pois, com muito orgulho que presto hoje esta singela homenagem a Olhão, concelho que se fez a si próprio e que ganhou por direito um lugar na nossa história colectiva.
Esmeralda Ramires

sábado, fevereiro 16, 2008

O GRÉMIO LISBONENSE

Sobre o tema do Grémio Lisbonense, o Luís Coelho, no Suspeitix, deixou o seguinte post:


Caro Zé Reis Santos,


Li o teu post sobre o Grémio Lisbonense e não posso deixar de concordar contigo e com o Daniel Melo, no que diz respeito "à nossa memória, à nossa História, ao nosso passado, ao nosso presente". Preocupante, sem dúvida.
Mas tenho que te referir que esta situação do Grémio Lisbonense não é de agora, já se vem desenrolando nos tribunais há bastante tempo, e é o infeliz, mas verídico, corolário para quem faz obras e modificações no local arrendado, sem expressa autorização do senhorio.
Por mais movimentos e apoios que se manifestem agora, não há Tribunal que possa retirar a razão e o direito que assiste ao proprietário do 1ºandar onde está instalado o Grémio Lisbonense. Qualquer advogado que consulte o processo (e garanto-te que vários o fizeram) assim o dirá.
E olha que já há alguns meses que a Direcção do Grémio foi recebida pelos gabinetes de todas as forças representadas na Vereação da CML para explicar a situação delicada que estava a passar.
Claro que, com serenidade e calma, se vai arranjar uma solução para alocar o Grémio; se não continuar ali, passará por certo para outra sede nova, na mesma área geográfica.
Posso-te grarantir que da minha (nossa) parte se fez o que era políticamente exigível: foi apresentada e aprovada uma Moção na Assembleia de Freguesia de São Nicolau e patrocinada uma outra providência cautelar pela Junta de Freguesia, bem como foi apresentada uma Recomendação na Assembleia Municipal (aprovada por unanimidade).
Contudo, decisões do Tribunal, por mais injustas e incríveis que nos pareçam, são para serem acatadas num Estado de Direito. Sabe-o bem a Direcção do Grémio e a sua Advogada. E nós todos também.
Olha, Zé: ainda iremos beber, seja lá onde fôr, um café no Grémio Lisbonense onde te apresentarei o meu amigo Zito. Até lá, vamos acompanhando as negociações em curso.

Luis Coelho
.
.
Como imaginas, Luís, não tinha essa informação. O que pensas que é, então, possível fazer? Achas que uma atitude mais radical por parte do Grémio lhe trará alguma recompansa?

quinta-feira, fevereiro 14, 2008

Memórias de Lisboa


Recentemente encontrei o Daniel Melo no ICS, e ele informou-me acerca dos últimos acontecimentos do Grémio Lisbonesne, associação centenária da cidade de Lisboa. Já tinha ouvido alguma coisa, mas fiquei chocado com o grau de violência física e mental utilizado.

Honestamente que por vezes não sei o que é que andamos a fazer à nossa memória, à nossa História, ao nosso passado, ao nosso presente.

E estes episódios, não sei bem porquê, têm-se repetido com demasiada frequência ultimamente; já repararam?

Deixo o excelente texto do Daniel (disse-lhe que o roubaria...) e deixo também um (pequeno) apelo: vamos tentar prestar atenção ao que se anda a passar... já faltou mais para que Portugal seja apenas um grande centro comercial...


O Grémio Lisbonense merece o Rossio (via Peão)

O Grémio Lisbonense, associação sociocultural centenária, foi despejada esta 6.ª feira da sede onde estava desde 1842, sito na R. dos Sapateiros, 226, 1.º. Da sua varanda por cima do Arco do Bandeira tinha-se uma das mais belas vistas de Lisboa: sobre o Rossio e a cidade de todos nós.Na ocasião, a polícia agrediu à bastonada sócios e simpatizantes da agremiação que apenas estavam a manifestar o seu descontentamento pela injusta acção de despejo (depoimentos aqui, aqui e aqui; imagens na Tvnet), permitindo à Amnistia Internacional aumentar a sua colecção de cromos sobre a violência policial no país.
O Grémio foi fundado por maçons, tal como o seu nome original deixa adivinhar: Academia Fraternal Harmónica.
O blogue FozIber refere que o Grémio esteve ligado às célebres Conferências do Casino (1871), onde Antero de Quental apresentou o demolidor «Causas da decadência dos povos peninsulares nos últimos três séculos». Após a conferência de Eça de Queirós a iniciativa foi proibida pelo governo e o Casino encerrado pela polícia (hélas!, cá está ela outra vez). Ainda sobre a história que o Grémio entrecruzou, e sobre o bem comum, vd. o texto de Rui Tavares hoje no Público, «Público mau, privado bom».
Recentemente, o Grémio recolocara-se entre os espaços culturais de referência, combinando formação em fotografia e artes com lançamentos de livros e revistas, concertos de chorinho, tango, música de dança, etc., tudo num salão de festas único, o tal com vista sobre o Rossio, com o soalho coalhado pela luz esmaecida da cidade. Tinha um auditório heterogéneo, combinando um público de bairro que lá ia jogar bilhar, beber um copo, ver tv ou cortar o cabelo no barbeiro centenário, com jovens vindos de todo o lado para a boémia, turistas e imigrantes brasileiros que iam ouvir e dançar o chorinho brasileiro, um dos géneros musicais mais alegres e boémios do mundo, com um toque luso. Foi assim que descobri os Roda de Choro de Lisboa e, indirectamente, o grande mestre Raul de Barros. E os fabulosos Farra Fanfarra, banda de música de festa a la Kusturica.
Era já um ex-libris da boémia lisboeta e um exemplo de como as associações populares podem ter um papel relevante na revitalização urbana, mesmo em bairros desertificados como a Baixa.
Por tudo isso, fora reconhecido como instituição de utilidade pública pela Câmara Municipal de Lisboa (CML). O irónico disto tudo é o Grémio ter sido despejado depois de tal reconhecimento. Mas a CML, como lhe competia, não se alheou do caso e agora também participa nas reuniões com o senhorio para tentar desbloquear a situação. Há quem diga que o senhorio quis despejar o Grémio para ali instalar um hotel de charme, aquele contrapõe que era para arrendar. Mas se assim era, porque não arrendá-lo ao Grémio? Por se querer um valor demasiado elevado, leia-se especulativo? Enquanto instituição de utilidade pública, o Grémio deveria ter direito de preferência, fosse para arrendamento ou compra.
Portugal merece um espaço assim: podeis assinar a petição «Contra o despejo do Grémio», para o Grémio ter mais força quando for a próxima reunião conjunta com a CML e o senhorio, já esta 4.ª feira. Ou, então, fazei-vos sócios, como eu. A cooperativa cultural Crew Hassan está a apoiar o Grémio e tem na sua sede uma cópia impressa da petição. Também era importante o Grémio ter o apoio público da Confederação Portuguesa de Colectividades de Cultura e Recreio, sendo sua associada.
O Grémio merece o Rossio de todos nós. E Lisboa precisa de espaços como este para se revitalizar. Valem mais do que não sei quantos planos megalómanos.
Daniel Melo

quinta-feira, janeiro 31, 2008

Quase deixávamos passar

Há 60 anos (no dia 30 de Janeiro de 1948), foi assassinado Mohandas Karamchand Gandhi (मोहनदास करमचन्‍द गान्‍धी em sanscrito). Um exemplo nunca esquecido.


1506

Foi hoje aprovado, pela Câmara Municipal de Lisboa, o Memorial às vítimas do massacre judaico de Lisboa de 1506. Ver mais aqui.

quarta-feira, janeiro 30, 2008

Barbaridade


Assim escreve Pedro Picoito no Cachimbo de Magrite, sobre a I República e o Estado Novo:

Assim, a chamada República Velha significa um corte histórico com a tradição liberal portuguesa, para o bem e para o mal representada pelas sete décadas de constitucionalismo monárquico. Ao contrário do que ensina a mitologia corrente, a Primeira República não antecipa a democracia, de que a "longa noite do fascismo" seria apenas um intervalo, mas a ditadura do próprio Estado Novo. O quadro histórico em que se movem Afonso Costa e Salazar é o mesmo. A extraordinária violência da política republicana, que contamina o quotidiano do país, abre caminho à violência ordinária e quotidiana do salazarismo, que despolitiza o país. O país, cansado de política, suspirou de alívio. Durante 48 anos.

É incrível como uma mentira tantas vezes repetida acaba por se tornar verdade.
A I República não era liberal, era o quê? Um regime revolucionário?
Considerando esta tese como válida, o que defende Rui Ramos, é tomar em consideração que o período entre 1910 e 1926 é estanque e «monocolor». O que, manifestamente, não é verdade.
O que fazem os anarquistas, que por diversas vezes paralisam o país? Ou os Monárquicos, que até proclamam uma Monarquia no Norte? Ou os militares, que com Pimenta de Castro, primeiro, e com Sidónio, depois, procuram por via violente a tomada do poder do Estado? O que é o 18 de Abril de 1925 ou o 28 de Maio de 1926?
Quem tem, afinal, o monopólio da violência?
Não será mais plausível a explicação de que todo o período é que é violento, independentemente do quadrante político? (aliás, pelo menos desde o 31 de Janeiro de 1891 que o uso da violência como táctica de assalto ao Poder é frequentemente utilizada...).
Gosto ainda da ideia de que o Estado Novo despolitiza as pessoas. Nada mais errado. Foi, talvez, dos períodos mais politizados da nossa história recente; com grande confronto quer na oposição quer na situação. Aliás, basta pensar que, na sua génese, o Estado Novo tem uma forte matriz liberal (sim, liberal). Basta analisarem as suas leis eleitorais.
Por fim, depois de tanta baboseira, entendo o «alívio» que Pedro Picoto diz sentir no Estado Novo. Para a sua linha interpretativa imagino que seja, mesmo, um qualquer alívio, aqueles 48 anos (para outros, imagino, talvez tenha sido um tormento...)

segunda-feira, janeiro 28, 2008

Arquivo Maria de Lourdes Pintasilgo

Via O Peão soube que está online parte do Arquivo de Maria de Lurdes Pintassilgo, a primeira, e até hoje única mulher chefe de Governo portuguesa. Antes de Margaret Tatcher, Hillary Clinton ou Segolene Royal, Portugal apresentava-se na vanguarda da modernidade política.
Viviamos ainda na espuma da Revolução.
Tanto passou...
Deixo a nota de entrada do arquivo (que irei visitar com frequência, julgo...)

O arquivo Maria de Lourdes Pintasilgo reúne os documentos acumulados ao longo da sua vida pessoal e profissional. O seu conjunto reflecte os contextos familiar e escolar em que se formou, os estudos realizados, as actividades que desenvolveu no plano profissional, como quadro superior da Companhia União Fabril (CUF), no plano eclesial, como militante da Juventude Universitária Católica (JUC) e da Pax Romana, membro do Graal, no plano político, como procuradora à Câmara Corporativa (1969-1974), colaboradora do Ministério das Corporações e Previdência Social (1970-1974), secretária de Estado do Ministério dos Assuntos Sociais do I Governo Provisório (1974), ministra dos Assuntos Sociais dos II e III Governos Provisórios (1974-1975), presidente da Comissão da Condição Feminina (1975), embaixadora de Portugal junto da UNESCO (1975-1980), primeira-ministra do V Governo Constitucional (1979-1980), assessora do presidente da República (1981-1985), dinamizadora do Movimento para o Aprofundamento da Democracia (1982-1985) e candidata às eleições presidenciais de 1985-1986.
O arquivo integra também a documentação relativa às suas actividades como membro de várias organizações nacionais e internacionais, e no exercício de cargos de liderança dessas mesmas organizações. Documentadas estão ainda as distinções que lhe foram concedidas. Os seus escritos como conferencista, bem como as suas intervenções na grande imprensa através de inúmeras entrevistas, encontram-se também aqui reunidos.
Trata-se de um património de importância singular para a memória portuguesa, seja por Maria de Lourdes Pintasilgo ter ocupado um dos mais altos cargos da vida política do país, o de primeira-ministra, seja pelo protagonismo que alcançou nos circuitos nacionais e internacionais, ao longo de mais de cinco décadas, através da sua forte presença intelectual e cívica.

segunda-feira, novembro 12, 2007

Dia da Memória

Em alguns paises, este é o dia de reflectir o século XX.
Há 89 anos terminava a maior chacina até então testemunhada por homens civilizados.
Às 11 da manhã do 11º dia do 11º mês de 1918 terminava a I Guerra Mundial.

Hoje ainda não se esqueceram as papoilas que cresciam na cal dos corpos enterrados à pressa.
Ainda hoje se contam as cruzes, e se questiona: como foi possível permitir isto?
Nós também tivemos os nossos mortos. Nas trincheiras de La Lys ou nas picadas africanas.
Alguém se lembrou deles?



sábado, novembro 10, 2007

Norman Mailer

A vida de Norman Mailer (aqui o New York Times) lembrava que a América já teve intelectuais, activistas, jornalistas.
A sua morte deixa-nos todos bem mais pobres.
É que são cada vez menos os que se regem por valores.
Os que se batem por ideais.
Os que não se resignam.




"I take it for granted that there's a side of me that loves public action, and there's another side of me that really wants to be alone and work and write. And I've learned to alternate the two as matters develop."

Norman Mailer, 1923-2007.

sexta-feira, novembro 09, 2007

Berlim [adenda]

Três dias na história de uma cidade.
Dias de angustia, de celebração, de lágrima e de riso. De possibilidade e de sonho.
Dias de partilha, de fuga, de medo e de pânico.

Três dias na vida de Berlim.
Três dias que a história quis que ocorressem na capital alemã, centro natural de filosofia, de ideia, de política, de cultura.
Dias que a história quis que fossem triplamente certificados pelas mesmas testemunhas, experimentando no real o que de melhor e de pior a humanidade é capaz de produzir.
Três dias onde Berlim assumiu, ontem como hoje, um estranho magnetismo potenciador de purismos extremos. Ontem foi a possibilidade total da libertação, anteontem a escuridão do nazismo totalitário. Já tinha sido a exaltação da possibilidade do futuro político. Hoje é a Ideia de Europa.

Separados por sete décadas, a queda do muro de Berlim, a Kristallnacht nãoe a podiam representar estados de espírito mais antagónicos. De verdadeira superação colectiva e de devir nacional, o dia 9 de Novembro de 1989; de definição do totalitarismo pagão e racista e de afirmação do nazismo como formula política de matriz muito particular do 9 de Novembro de 19381; e de possibilidade política infinita, com a (dupla) proclamação de 9 de Novembro de 1918.
São dias desses que definem a alma de uma civilização, que assumem carácter, que permitem a inscrição, a letras escarlates, na memória.

E essa perdura… se não a quiserem apagar…

ADENDA

Por incrível que pareça, estes dois dias na verdade foram 3 (ou 4), pois a 9 de Novembro de 1918 era proclamada, em pleno Reichstag a República alemã, por Philipp Scheidemann. Mas o mais inacreditável é que nesse mesmo dia, duas horas mais tarde, a meros 2 kilómetros de distância, na Berliner Stadtschloss, uma República Socialista foi proclamada por Karl Liebknecht. No mesmo dia, duas repúblicas. Deve de ser algum recorde...


1989, queda do Muro


1938, Kristallnacht


1918, proclamada a República, por Philipp Scheidemann.



1918, proclamada a República Socialista,

por Karl Liebknecht.


Pesquisar neste blogue