terça-feira, março 30, 2010

O senhor 60%

[deixo-vos o meu artigo de hoje no Diário Económico]

O senhor 60%

Sem surpresa, Pedro Passos Coelho foi eleito Presidente do PSD. Com uma expressiva votação acima dos 60% e vitórias em todas as distritais do Partido – à excepção da Madeira – Passos Coelho tem agora a responsabilidade de ter de ser um líder bem mais efectivo que os seus predecessores.

Não só porque ganhou com o apoio expressivo e declarado dos militantes, como também porque não deve ter dos seus adversários o comportamento que ele - Passos Coelho - teve com a líder cessante; em especial se o agora líder laranja convidar ambos para os principais órgãos do partido.

É, portanto, num clima de alta expectativa que tomará posse o próximo Presidente do PSD; até porque a recente aprovação do PEC na Assembleia da República lhe permite que não tenha de no imediato reagir politicamente (e ter de cumprir a promessa de chumbar o mesmo PEC) e possa dispor de um período de adaptação à situação política portuguesa. Resta então saber se o novel presidente do PSD manterá o rumo que denunciou na campanha eleitoral interna (onde manifestou em diversas ocasiões o desejo de eleições antecipadas), mesmo sabendo que essa estratégia o coloca em confronto com Cavaco Silva.

O que disse na noite da vitória parece dar a entender que terá compreendido que não pode - imediatamente - causar uma crise política. Até porque se entende que Cavaco Silva, neste momento, tenha mais confiança no PS vinculado a este PEC que no projecto defendido por Passos Coelho. Assim, resta saber se estarão, o líder do PSD e a sua equipa, dispostos a esperar pelo verão do próximo ano para poder levar o PSD ao poder ou se, pelo contrário, e como já defendeu, o objectivo central da estratégia laranja passa neste momento por atingir a cátedra de São Bento o quanto antes. Neste sentido, Passos Coelho terá - e em breve - de escolher entre ser um líder agressivo na procura do poder (o que significaria, por exemplo, apresentar uma moção de censura) ou um líder passivo, de respeito institucional, que salvaguarde em primeiro lugar a (re)eleição de Cavaco Silva e só depois pense na sua ascensão à liderança do país. O problema que Passos Coelho terá é que a primeira solução desagrada a Cavaco Silva, e a segunda não satisfaz os seus principais apoiantes; até porque neste momento Passos Coelho tem muito pouco palco institucional onde brilhar (não é deputado nem controla o grupo parlamentar, não é autarca ou Presidente da Câmara, nem pode de Bruxelas fazer oposição). Resta saber o que o senhor 60% (e a sua ‘entourage') quererá fazer, e em que sentido cortará este verdadeiro nó Górdio.

Paradoxalmente, a eleição de Passos Coelho, conjuntamente com a aprovação do PEC, acaba por aproximar o PS de Cavaco Silva. A apresentação do PEC - que agradou à Presidência e causou alguns arrepios à esquerda do PS, onde me incluo - posicionou os socialistas demasiado à direita (liberal), justamente o campo predilecto de Passos Coelho; pelo que o PS deve continuar a apostar na parlamentarização da vida política portuguesa (até porque não tem estratégia presidencial definida) e forçar o erro a Passos Coelho.


1 comentário:

Vera T. Santana disse...

Sim, é preciso reforçar a parlamentarização da política portuguesa.

Seria interessante reflectir sobre os parâmetros desejáveis para atingir este objectivo.

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