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segunda-feira, setembro 22, 2008

Repensar o PS em Lisboa II

Devo dizer que este post começou num curto comentário ao post do José depois do golo do Maxi Pereira, e que o tamanho final é decido pela duração do intervalo.
A ideia principal, no caso de me perder pelo caminho, é que Lisboa está a mudar e o PS deve acompanhar essa mudança e ter uma estrutura mais profissional, mais ágil e mais próxima dos munícipes. Acho que ainda preciso de ter mais factos e mais discussões até realmente poder defender qual a melhor solução. Agora, encontro algumas falhas ou discordâncias nos argumentos usados pelo José, e decidi começar pela seguinte questão, porquê?
Porque é que uma secção com 1000 militantes faz reuniões com mais militantes? Será que o número de militantes é mais importante que a qualidade da militância? E será que queremos ter reuniões com mais de 20/30 militantes? Qual o objectivo dessas reuniões? Onde fica a discussão e o debate de ideias nessas megas reuniões?
Ok, não é só uma questão, admito que tenho muitas perguntas e ando á procura de respostas. Só uma salvaguarda, estas questões não significam que eu ache mal secções maiores, acho que o tamanho das secções é apenas um dos aspectos em discussão e, repito, ando á procura de respostas.

Repensar o PS (em Lisboa)

Foi com alguma curiosidade que li o que o João Ribeiro escreveu sobre a última reunião da Concelhia do PS Lisboa e os seus militantes.

Eu estive na dita reunião como representante do Secretariado da Concelhia do PS Lisboa, não conhecia o João, mas partilho com ele algumas das inquietações que revela no seu texto, nomeadamente as relativas ao grau e à intensidade da participação militante nas reuniões internas do Partido.

Bem sei que o PS está totalmente mobilizado na prossecução dos seus objectivos futuros (renovação da maioria parlamentar), mas a verdade é que essa motivação não se sente em outras estruturas do Partido, nomeadamente nas de base. Há, como imaginam, muitas razões para que tal aconteça (falta de interesse pela política partidária, existência de alternativas políticas e cívicas fora dos partidos, comodismo, etc.), mas estou em crer que o Partido é um dos principais culpados pelo estado a que a coisa chegou, pois promoveu e privilegiou - desde sempre - a existência geográfica e profissional em detrimento da concentração humana.

É normal que isso tivesse de acontecer na fase de implementação do PS na sociedade portuguesa, e o PS fez, nos primeiros anos da vida democrática portuguesa, um grande esforço para construir uma rede partidária que lhe permitisse cobrir geograficamente o país (e organizar e apresentar listas para todas as eleições – recordo que só nos anos 80 o PS conseguiu fazer o pleno de candidaturas nas Juntas de Freguesia e Municípios) e ocupar politicamente as empresas e sindicatos (lugares políticos privilegiados até à década de 90). Assim foi decidido que cada secção teria de ter, no mínimo, 15 militantes inscritos para existir. Repito, o objectivo primordial desta estratégia, há altura em que foi implementada, era a de obrigar o Partido à existência.

Claro que cada secção assumia uma relativa importância, não só porque representava a face do Partido em determinado local, mas porque permitia o acesso de militantes de bases aos órgãos colegiais superiores, leia-se congressos federativos e nacionais. Assim, e dependendo do rácio do momento, cada secção tinha direito a X delegados, segundo o seu número de inscritos. Tal situação levou à existência de secções fantasmas (existentes apenas para efeitos eleitorais) ou à desmultiplicação de secções para melhor aproveitamento do rácio (atendendo aos números de 2008, as secções tem direito a 1 delegado por cada 75 militantes, com o mínimo de 1 delegado. Neste cenário é mais proveitoso ter 10 secções de 15 militantes – e 15 delegados –, que 2 secções de 75 – e apenas 2 delegados).

Como vemos, o uso das secções foi muitas vezes invertido, em proveito dos seus coordenadores (que assim controlavam o acesso a algumas listas – nomeadamente as das Freguesias -, e aos delegados aos congressos, espécie de tribuna de honra para muitos militantes). Claro que generalizo, mas o meu ponto é que hoje não faz sentido ter secções com 15 militantes, e muito menos se nos estivermos a referir a secções de residência (o PS também tem secções sectoriais).

Na cidade de Lisboa o PS está organizado em 17 secções muito díspares, variando o número dos seus militantes (inscritos e activos) e o número de Freguesias a seu cuidado. Assim, por exemplo, a secção de Belém (a minha), secção média no espectro da Concelhia, não chega aos 200 militantes inscritos (muito menos activos), e tem a seu cargo, politicamente falando, as Freguesias de Santa Maria de Belém e de São Francisco Xavier. Já a secção de Benfica, com quase 700 militantes, tem as freguesias de Benfica e de São Domingos, e por ai em diante. Nem todas as secções têm espaço físico (algumas reúnem em hotéis) e muitos dos espaços existentes são, no mínimo, muito pouco convidativos. É este o estado da arte. E não parece melhorar, pelo contrário, até porque são muitos os coordenadores de secção que as entendem como coutada pessoal. O Partido assim é muito pouco efectivo e muito pouco atractivo. Assim entende-se a presença dos 20 ou 30 militantes das quatro secções convocadas para o efeito (representando as freguesias do núcleo central da cidade, de campo de Ourique a Campolide, passando pelo Bairro Alto e a zona de Fátima ou do Coração de Jesus).

A minha sugestão é simples: que se trate da reorganização administrativa do PS (em Lisboa). É um tema por demais adiado e que não pode esperar mais (e que devia, até, ligar-se à muitas vezes falada reorganização administrativa de Lisboa – e do país).

Tenho muitas vezes dito que temos um Governo do século XXI mas um Partido do século XX (e alguns políticos do século XIX). Temos tratar do processo de modernização do PS, sem traumas ou dogmas. A minha sugestão é que se inicie um alargado processo de debate e reflexão (a ser feito em todas as estruturas do partido, mas em especial às de Lisboa) e que se construa uma solução que possa permitir ao Partido Socialista ser o partido atractivo e atraente (nas suas bases) que já soube ser no passado.

Termino com uma ideia para Lisboa. A Concelhia tem cerca de 5000 militantes inscritos. Porque não 5 grandes secções com 1000 militantes cada? Decerto que teríamos nas reuniões bem mais de 20 ou 30 camaradas.

sábado, fevereiro 16, 2008

Reflexão


Num momento como este não posso deixar de reflectir sobre duas propostas políticas decorrentes de diferentes conceitos de, chamemos-lhes assim, pluriculturalidades, em menos de uma semana, ambas europeias, se bem que a 1ª de uma Europa Protestante, periférica por vontade própria, insular e monárquica e a 2ª de uma Europa de origem Católica, laicizada, republicana e central, política e geograficamente.

O Anglicano Arcebispo da Cantuária propõe a coexistência de dois universos legais num mesmo território: a sharia, para os muçulmanos, o enquadramento legal britânico para os súbditos ingleses. O que poderá querer dizer que os muçulmanos são, não súbditos de Sua Majestade, mas súbditos de Allah. A relação entre súbditos e (respectivos) monarcas parece prevalecer (feudalmente?) sobre a inscrição territorial. Um recente inquérito à população muçulmana indica que uma parte significativa é negacionista no que ao Holocausto dos judeus diz respeito. Holocausto que a Grã Bretanha combateu. Não haverá aqui um paradoxo? Questionamo-nos sobre os interesses económicos e financeiros colectivos que estarão por detrás desta tomada de posição anglicana e inglesa, interesses que, é um dado inegável, ao serem bem defendidos, poderão contribuir largamente para a manutenção de uma civilização.

Talvez em resposta a esta posição, o Presidente Sarkozy propõe que o Holocausto seja relembrado em França. Já sabíamos que a França legislara medidas anti-negacionistas. Sabemos que a mortandade de judeus na II Guerra Mundial foi muito significativa e sabemos das origens judaicas do Presidente Sarkozy. A inscrição territorial “imaginada” e legitimada n´O Livro Religioso, a Torah, de um povo então em diáspora – a nação judaica – parece poder conviver com a inscrição territorial real: a França enquanto nação. De facto, assim aconteceu, com muita dor, muita ruptura, muita proscrição, muita estigmatização dos judeus pelos europeus. E com a guetização dos judeus, não obstante a contribuição económica e cultural destes na formação da europeidade. O gueto não vai, naturalmente, repetir-se na Europa porque foi enviado para a península arábica onde, por sua vez, é um guetto que guetiza outros povos, proibindo-lhes, nomeadamente o acesso à água potável.

Por outro lado, a utilização das emoções das crianças das escolas francesas – pelo apadrinhamento, por cada uma, de um/a menino/a morto/a no Holocausto – segue o padrão dos piores programas televisivos da última década. Questionamo-nos sobre os interesses económicos e financeiros colectivos que estarão por detrás desta tomada de posição francesa, interesses que, é um dado inegável, ao serem bem defendidos, podem contribuir largamente para a manutenção de uma civilização.

Se a política pragmática é importante para a continuidade de uma civilização, os princípios fundadores de qualquer civilização são-no de igual modo, sob pena desta ficar reduzida a bens de consumo deixando de ser uma civilização e passando a ser uma feira popular ou um supermercado gigante, o que é a negação do próprio conceito de civilização. No caso britânico, perguntamo-nos qual o espaço que é dado às noções de cidadania e de universalidade? Qual a relação desejável entre multiculturalismo e cidadania? No caso francês, nação que impediu o uso do tchador nas escolas, dando prevalência à noção de sociedade / universalizante sobre a noção de comunidade / particularizante, qual o significado simbólico de levar crianças vivas a apadrinhar crianças mortas? Melhor fora apadrinhar crianças vivas enquanto elas o estão.

E o que acontece quando uma menina de 11 anos inglesa conversa com uma menina de 11 anos francesa, no Verão, numa praia, eventualmente algarvia (em Portugal)? “Sabes, uma amiga minha, a Faranaz, foi agora excisada, diz a inglesinha. Os Pais fizeram uma grande festa porque é um acontecimento que, entre muçulmanos, faz da Faranaz uma mulher que já pode casar-se.”. “Ah! Que coisa horrível; é uma mutilação! Diz a francesinha. As meninas muçulmanas da minha escola não podem sequer tapar a cara porque os professores querem vê-las, quanto mais serem sujeitas a coisas dessas que levariam os Pais a serem castigados pelos Tribunais. Sabes, eu sou madrinha do Samuel, um menino judeu que vivia em Aix-en-Provence, escondido numa escola francesa, usava o nome falso de Nicholas e era órfão de pais austríacos judeus. Tocava violino e tinha 13 anos quando morreu às mãos dos nazis, há mais de 60 anos.” ...

A cidadania e o pluriculturalismo são noções cujas relações actuais, nomeadamente na Europa em construção, têm de ser repensadas, sem preconceitos nem chavões que mais não fazem do que esconder realidades para as quais temos de olhar de frente. Comunidades diversas a viverem num espaço comum exige muita reflexão. Modos de ver e de estar diversos transportam potenciais conflitos. Em democracia, as diferenças têm direito a expressão e os conflitos são reguláveis. E não podemos nem devemos negar as nossas noções europeias herdadas da Grécia, de Roma, da Renascença e, mais recentemente da Revolução Francesa, nem obrigar crianças a carregar, às costas e dentro do coração, cadáveres com nomes próprios e biografias concretas. Se se trata de defender interesses económicos e financeiros colectivos de uma Nação – a Britânica - ou de um conjunto de nações – a Europa continental, talvez fosse importante não apenas acertar objectivos, estratégias e tácticas como delas dar amplo conhecimento às pessoas que constituem a Europa ou as Europas.

Que Europa queremos construir? Que europeus queremos ser?

Vera Santana
Socióloga e socialista

Lisboa, 14 de Fevereiro de 2008

domingo, setembro 23, 2007

SexExtasy.


O trabalho preparado para o jornal da uma na RTP 1 sobre o SexExtasy veio comprovar que quando se quer também é possível se produzir bom jornalismo, em reportagens ou em notícias.

Parece que a ultima moda da noite, de algumas noites, é a mistura de Extasy com Viagra, num cocktail explosivo que procura aliar a desinibição do Extasy com o performance enhancer do Viagra. Claro que a dose necessita de sol, período da noite onde a festa realmente começa. Até lá, que se entretenham com álcool, cocaína e umas pastilhas.

Ainda me lembro quando sair era um processo social, colectivo, onde os grupos deambulavam na noite em quotidianos tribais, vagueando de bar em bar, em noites curtas de cerveja e ganza. Também me lembro do boom nocturno do início dos anos 90, quando o Excasy rebentou com a noite de Lisboa. As festas do Alcântara, do Kremlin, o culto dos DJ’s, os after no Jardim Constantino, no Garaje (mais tarde), os pequenos-almoços no miradouro da Graça, ou num belo bar na praia. Depois veio o consumo massivo, as festas – as privadas e a públicas -, o deboche, o abuso. O que era a experiência tornara-se a rotina.
Mas nada existia. Era uma vivência etérea, uma perpetuação do mito da eterna juventude, quando a invencibilidade é palpável e confirmada dia após dia com a história fresca da noite passada. No dia seguinte já não existia. Nunca existira.

Estive nessas noites, de cartão VIP (mas não tanto), entrada assegurada, quotas pagas e lugar à porta. Vivíamos em Tóquio, com horários inversos, onde tudo se passava entre as 4 e as 10 da manhã. Havia pessoal que ficava em casa a dormir, acordava pelas 4, para estar nos sítios pelas 5, num ritual estranho e perverso.
Havia quem acumulasse noites na noite. Até às 3 noite de Bairro, depois noite do social, e no fim noite de rave. As drogas, os líquidos, as gentes adaptavam-se aos sítios, às horas, às mokas. Era o pico da noite individual, rodava grupos e ambientes. Havia muito que explorar, onde ir, ir ver e ser visto, pertencer a uma cultura que colocava Lisboa no centro das rotas noctívagas europeias e mundiais.
Nesta altura abriu o Lux. E tudo o que havia melhorou. Ficou concentrado e elevou a fasquia. Mas a noite já não era notícia. A multidão era repetida. A imagem do Shining, quando o Jack Nicholson dança numa sala espelhada, cheia e confortável, só para ver, quanto procura o reflexo dos espelhos, que está sozinho num recinto frio, é mais séria que imaginada. É uma imagem forte. E um confronto intenso, que permite baixar os níveis, descansar e inscrever uma interessante reflexão sobre o que é, para nós, o Real. E onde nos interessa interferir.

Deixara de fazer sentido a correria, o não perder nada, o estar em todas. Qualidade em, detrimento da quantidade. Falar e ouvir. Trocar uma ideia. Ser intelectual. Não no sentido pedante do termo, mas na medida em que interessa o intelecto, o pensamento, a filosofia, a cultura. É uma outra noite. É a noite dos jantares em casa, das saídas curtas, do regresso ao Bairro, agora com apêndices novos, como a Bica. É o regresso à bela da ganza (que não fumo) e da jola. Da tranquilidade. É «fumar unzinho e ouvir Coltrane, não faço mais isso mas entendo muito bem» (Legião Urbana, Leila). É falar de política, de trabalho, de projectos, de futuro. É saber que existo para além de hoje.

Entendo bem o SexExtasy. Been there, done that. Mas já não lá estou.
Óptima reportagem / notícia (faltou a opinião de um sociólogo…)

sábado, setembro 22, 2007

Redescoberta.


Já por lá tinha passado, mas regressei por indicação do Luís Aguiar Santos, d'O Amigo do Povo (que já não frequento com a assiduidade que fazia quando por lá estava o Fernando Martins). Refiro-me ao excelente blogue que é o Portugal Contemporâneo.
As (sete) postas em causa são do Pedro Arroja, e versam essencialmente sobre a vida académica, comparando a (triste) realidade lusa com experiências adquiridas por terras canadianas ou finlandesas. De muita qualidade, as considerações do Pedro Arroja, a necessitarem da Loja alguma reflexão para um futuro próximo. Um tema muito actual e pertinente, sem dúvida.
Vejam e digam se não tenho razão...

terça-feira, março 13, 2007

Salazar


Nos últimos tempos muito se tem escrito e dito sobre a possibilidade de Oliveira Salazar ser contemplado com um Museu em Santa Comba Dão. Gostaria de ter tido tempo de intervir nesta polémica, mas razões académicas não me tem permitido estar tão activo noutras frentes como gostaria de poder estar.
No entanto gostaria de dizer o seguinte. Não tenho nenhum tipo de problemas que Salazar tenha um museu (desde que não seja um templo) ou centros de estudos a si dedicados. Falamos de memória e de preservação de um espaço de herança cultural. Mas, da mesma maneira, acho inacreditável que, por exemplo, construam um condomínio fechado nas antigas instalações da PIDE, quando a alternativa era de aí erguer um Museu. Não podemos, sob o risco de valorizarmos a história e a perpetuação de memórias oficiais, defender num caso uma solução que é aplicável ao outro.
Salazar pode ter um Museu, claro. Também a PIDE.

Relembrei-me deste tema a ler nestes dois excelentes blogues (a casa de Usher e o Kontratempos) estes textos, do Tiago e do Ricardo. Alguns excertos.

Ricardo Revez, «a propósito dos acontecimentos em Santa Comba Dão»

Há uns dias, alguns membros da URAP deslocaram-se a Santa Comba Dão para se manifestarem contra a concretização daquela ideia. Uma manifestação de intenções pacíficas num país onde estas são perfeitamente legais. Porém, foram recebidos de forma bastante agressiva por um grupo misto de habitantes locais e apoiantes neo-fascistas ou neo-nazis.
Em relação a estes últimos, já era de esperar. Eles andam aí e aproveitam todas as oportunidades para aparecer. O que vale é que ninguém os leva a sério, o que não significa que não devamos estar sempre atentos. Nem sequer me parece que um líder como Salazar os fascine. Os verdadeiros salazaristas - no sentido de apoiantes do fascismo ou regime autoritário português (como lhe queiramos chamar) que vigorou entre 1933 e 1974 em Portugal - já morreram todos ou estão a caminho disso. Estes elementos da extrema-direita que foram aparecendo nos últimos 10 ou 15 anos são claramente influenciados pelo exemplo alemão de fascismo: revolucionário, viril, racista, não-católico, e que apresenta bastantes diferenças em relação ao caso português. No entanto, como aquele foi o regime autoritário ou fascismo que tivemos, não têm outra hipótese senão considerar-se como seus herdeiros, embora exagerando a ideia nacionalista até ao ponto do racismo e da xenofobia. Assim, podem jogar com os sentimentos de insegurança que grassam no país, sobretudo no que diz respeito à violência e crime urbanos, sem ter que invocar nomes cujo desprezo é universalmente mais unânime (ex: Hitler). Penso até que se estas pessoas vivessem 6 meses num regime de verdadeiras características fascistas, mudariam logo de opinião. Por vezes, as suas convicções parecem-me fruto de uma certa ingenuidade. Como a maioria já nasceu em democracia, julgam que com um regime fascista iriam ter um "best of both worlds". Mas não. Nesse tipo de regimes não há lugar para meios-termos. Gostaria de ver como reagiriam, se, após uma suposta expulsão de todos os estrangeiros e não-brancos de Portugal, e, assim, de uma inicial euforia, vissem que já não podiam reunir-se em grupo como gostam de o fazer, nem ter acesso aos livros, filmes e discos que gostavam de ler, ver e ouvir. Isto só para referir os aspectos que mais afectam os jovens, como eles são, na sua maioria.


Tiago Barbosa Ribeiro, «QUE FASCISMO PARA SALAZAR? - II» (excelente texto, bem documentado e sistematizado. Não totalmente completo mas um contributo de elevadíssima qualidade - se toda a blogosfera fosse assim, não havia jornais)

2. A quem possa interessar um pouco mais de pensamento proveniente das ciências sociais e menos de algumas sedes partidárias vagamente positivistas, existe efectivamente uma distinção entre grau e natureza nas diferentes ditaduras que emergiram no século XX europeu. Os conceitos de totalitarismo e autoritarismo não são simétricos. Designam obviamente sistemas repressivos, mas condições sociais, teóricas e ideológicas bem distintas. Os totalitarismos tiveram dois tipos-ideais, no sentido weberiano do termo, que foram o estalinismo e o nazismo. Conceptualmente, os totalitarismos afastam-se dos autoritarismos e consolidam-se como o grau superlativo de concentração do poder político, situando-se naquela «era das multidões» de que nos fala Gustave Le Bon. Ora, o fascismo italiano distingue-se de nazismo e estalinismo. E o salazarismo de todos eles.
3. O historiador Zeev Sternhell avança com a fórmula «Ni Droite, ni Gauche» (1983) para desmontar as bases do fascismo, sustentando que o fenómeno é tanto uma síntese da revisão antimaterialista marxista como uma recusa do universalismo liberal de Kant, de Rousseau e dos enciclopedistas. A recusa dos valores do século XVIII encontra-se matricialmente relacionada com o nacionalismo biológico do fascismo, extremamente vigoroso na apropriação política do temor com que as classes médias reagiram à possibilidade de expansão do comunismo na Europa e ao culminar da crise económica da década de 1920, que veio intensificar uma proletarização que já se iniciara com a guerra. Produto tardio das sociedades em modernização, como já foi escrito, o fascismo é a resposta de angústia das novas nações operárias contra as velhas nações imperialistas. Os fascismos são regimes monopartidários com propriedades históricas e sociais comuns a vários países. Mas substancialmente diferente daquilo que é o fascismo-movimento, revolucionário e secular, plebeu e miliciano, subversivo das ordens liberal e marxista, o fascismo-regime implicou lógicas de compromisso com a burguesia, o exército e a Igreja.4. Essa cristalização de um movimento que animava as massas em torno de uma ideologia anticlerical, idealista e mítica, provocou o redimensionamento do seu programa totalitário e quedou o regime por práticas autoritárias enquadradas por um nacionalismo modernizador e expansionista, ao contrário de outros nacionalismos autoritários, conservadores e integradores, como o Estado Novo. Procurando substituir as tradicionais representações políticas e sociais que se encontram em crise após 1917, o fascismo é um fenómeno multicausal na expressão do descontentamento de classes médias polarizadas, a quem o seu tempo convoca o detrimento da liberdade em função da segurança. Veneradoras da ordem, da estabilidade e de uma coesão social tradicionalmente preservada entre o mecânico e o desigual, essas classes foram inicialmente mais permeáveis ao programa que os Fasci di Combattimento impuseram em Itália, servindo de modelo a muitos outros países europeus.

9. Onde fica o salazarismo no meio de tudo isto? Com o golpe militar de 1926, sem supresa, o programa antidemocrático que inicialmente se afirmara como reformador da República vai denunciar os processos de transformação da modernidade pela «excepcionalidade» da crise portuguesa e reclamar a «salvação da pátria» com um governo forte e restauracionista, o terreno orgânico de Salazar. No seio da Ditadura Militar vão congregar-se diferentes direitas da direita antiliberal. Aí encontraremos monárquicos que militaram contra a República até republicanos antidemocráticos, mas a disputa faz-se essencialmente entre a direita católica representada pelo Centro Católico de Coimbra e entre a direita integralista, doutrinariamente próxima da utopia passadista do Antigo Regime e de um ultramontanismo feroz.

sexta-feira, fevereiro 23, 2007

Itália. Roma. Portugal. Lisboa.


Sobre as últimas notícias chegadas de Itália (e não nos referimos à vitória do Braga em Parma), queria destacar esta última reflexão do Daniel Oliveira. Pelo que percebi ou o Daniel entende por hobby o que anda a fazer pelo Bloco de Esquerda ou então preparamo-nos para, pelo menos, uma coligação em Lisboa (que, para mim, só faz sentido no cenário actual).

Vale a pena ler o texto todo, mas reproduzimos aqui algumas (muitas) partes

Vamos, por facilidade, entender neste texto por "esquerda" os que estão à esquerda dos partidos social-democratas tradicionais. Quase sempre é feita a esta esquerda a mesma pergunta: terá maturidade para participar em soluções de compromisso? É, na verdade, um problema sem solução. Hoje, as principais clivagens políticas não se fazem entre a esquerda e a direita. Nem em política externa, nem em políticas sociais, nem no debate sobre o papel do Estado. Por deslocamento da social-democracia tradicional para a direita? Por cegueira ideológica da esquerda? Porque no plano estrito dos governos nacionais não há alternativas ao "realismo" do que se vai fazendo? A verdade é que hoje são maiores as afinidades entre um neo-liberal e um dirigente de um partido social-democrata europeu do que entre as várias componentes da esquerda.

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Resta a dúvida contrária: havendo um fosso intransponível entre partidos social-democratas e os partidos que estão à sua esquerda, devem os últimos arredar-se do poder condenando-se a si próprios ao papel de resistência inútil, para sempre na oposição? Não estão assim a atirar o centro-esquerda para os braços da direita? Não vale a pena ficar no confortável plano dos princípios. A esquerda deve medir cada um dos seus passos e cada uma das consequências das suas opções. Em Itália, sendo o regresso de Berlusconi um risco, a Refundação Comunista deve aguentar-se firme, tal como está a fazer a sua direcção, com um alto custo para a unidade do seu partido. O preço que a Refundação pagaria pelo regresso de Berlusconi ao poder por sua responsabilidade - pela segunda vez- seria tão alto que ela não só pode como vai aguentar isto tudo e muito mais. Sobretudo agora que se juntam ao albergue os democratas-cristãos de centro-direita que nem a sua agenda "fracturante" vão deixar de pé.

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Dito isto, em situações normais (as que nunca ocorrem em Itália) os governos de unidade de esquerda são cada vez mais improváveis. Serão mais naturais os governos de bloco central. Concordam em política externa, em política social e em política económica. É normal que quem veja a democracia como um mero acto de gestão da alternância na continuidade discorde de mim, mas os governos de bloco central não são compostos por forças alternativas. O entendimento ideológico é obviamente mais fácil. E faz-se, sem grandes dramas, quando a urgência o exige. O problema desta constatação é que, perante ela, a esquerda fica condenada ao degredo. E tendo o poder como uma miragem, não se sente na obrigação de construir um programa viável, fazer as alianças necessárias e abandonar a cartilha ideológica ou o populismo de circunstância. Condenada a receber ciclicamente o voto de protesto mais não pode ambicionar do que ser uma força de protesto.

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Por isso, a resposta às repetidas dúvidas sobre a disponibilidade da esquerda para a governabilidade é esta: depende. Depende do governo, das circunstâncias, do peso de cada um. De tudo. Mas a disponibilidade não pode ser tão pouca que o poder seja apenas uma projecto sempre adiado. Nem tanta que o programa político seja apenas um objecto decorativo. Sendo certo que um partido que não se vê a si próprio no poder não é um partido. É um hobby. E se só imagina no poder daqui a cem anos é pior que um hobby. É uma perda de tempo.

Das questões levantadas interessa-me, sobre outras, estas duas:
1. Será assim tão inevitável que a esquerda não partilhe o Poder? e isso é assim porque [1] não se identifica com tal, [2] não tem o necessário espírito de compromisso necessário para suportar governos de coligação (como o Daniel induz) ou [3] é dele afastado?
2. Qual será a inevitabilidade da criação de blocos centrais no contexto da política europeia contemporânea? Será o exemplo alemão o caso a exportar? Ou, pelo contrário, poderemos esperar que a esquerda (ou parte dela) assuma compromissos com a gestão do Estado? E aí o onus da aproximação ao Poder estaria onde? No possiel futuro exemplo na CML, seria o Bloco a aproximar-se ao PS para, em coligação (sempre com o PCP), governar Lisboa; ou, pelo contrário, seria de esperar que fosse o PS a aproximar- do BE, convidando-o para a partilha do poder da autarquia?

Esperemos pelos próximos capítulos (que virão...).

Reflexão. O final?



Terminas a tua última exposição com este parágrafo:

Em relação às tuas questões finais, Zé, penso que as pessoas não participam porque nunca foram habituadas a tal. Os portugueses delegam tudo ao Estado, às instituições políticas, pensando que apenas a estes compete decidir sobre a direcção do país, da autarquia ou da freguesia. Um bom exemplo é a fraca participação nas eleições e nos referendos. Porém, quando as medidas tomadas pelos responsáveis políticos não lhes agradam, criticam, queixam-se, lamentam, e não tomam atitudes. Para além do facto de a nossa democracia ser muito recente, penso que uma outra razão se vislumbra para tal situação e que é a sociedade burguesa em que vivemos. Uma sociedade das rotinas trabalho - casa e casa - trabalho (com férias no Algarve no Verão), do lazer, do fazer pela "vidinha", enfim, de um círculo vicioso que reduzem as pessoas a "cadáveres adiados que procriam". Nascem, arranjam um emprego, casam-se, reproduzem-se e morrem, sem ter a mínima curiosidade ou interesse por saberem quem é o vizinho do lado, quanto mais por participarem na vida da polis.
Por outro lado, parece-me algo difícil os grupos de cidadãos independentes poderem competir com as bem oleadas máquinas partidárias. Podem mesmo correr o risco de a médio ou a longo prazo cairem nos mesmos vícios que os partidos, e que tu, muito melhor do que eu, sabes quais são.

Não posso concordar mais. Temo é que seja essa realidade que apresentas esteja condenada a ser sempre verdade. Conheces-me e sabes que tenho uma posição pró-activa nestes assuntos. Acredito que se pode exigir mais da «sociedade civil» (que mais não é que um update do «povo» do século XVII) e que ela, quando lhe é dada a possibilidade, participa. Basta ver o último referendo. Há que continuar a acreditar que essa participação dará os seus frutos. É isso, em parte, que justifica a existência do Clube «Loja de Ideias», como sabes, e gostamos de pensar que não só não estamos sozinhos (há muita coisa a acontecer, pelo menos em Lisboa) como podemos , humildemente, contribuir para a tal «revolução das mentalidades» que recentemente expunhas.

Bom, se quiseres continuar podemos alongar a nossa troca de argumentos. É, como sabes, um previlégio e um prazer poder trocar ideias contigo, mais ainda desta forma exposta (tentei picar o Macieirinha, mas ele não se picou...) e informada. Estes temas que tratámos são, no meu ponto de vista, decisivos para tratar e analisar a política contemporanea. Espero resposta?

quinta-feira, fevereiro 22, 2007

Reflexão continua


A conversa com o Ricardo Revez ainda dura.
Na sua última reflexão afirma:

Concluindo: se fosse necessário iniciar uma revolução política em nome da Liberdade, ou, num caso extremo, em nome da Igualdade, qual seria a importância do cidadão comum no desenrolar dos eventos? Concerteza que teria alguma. Porém, comparada com a que tinha no tempo em que Delacroix pintou a A Liberdade Guiando o Povo, seria um papel secundário - quando faço esta afirmação refiro-me à parte violenta das revoluções, à luta armada, à resistência nas ruas, que estas quase sempre implicam. No final do século XVIII e durante o século XIX, o povo em armas derrotava guardas de elite. Hoje em dia, se o exército regular não estiver do seu lado, o povo nada pode fazer.É apenas isto.

Pergunto-me se o conceito de «Povo» que utilizes não será um pouco idílico, pouco «real». Pergunto-me também se o «Povo» de Paris antes e se barricar - nas diversas vezes que se barricou sabia que iria se barricar; ou seja, questiono-me acerca do carácter espontâneo da possibilidade transformista impulsionadora de uma atitude revolucionária. Isso é, até que ponto o «Povo» é actor, participante ou impulsionador.
Nos dias de hoje, concordo que ficaria muito surpreendido se os lisboetas, por exemplo, cercassem a Praça do Município e exigissem a demissão do Presidente da CML. Parece que o poder de decisão por tal resolução está restrito aos principais agentes políticos (e jurídicos) que, de forma táctica e estratégica, decidem entre si do bom timing de tal decisão. A população, o Povo, é afastada desta decisão. Será posteriormente chamada a pronunciar-se em eleições. Agora, deverá ser só esta a participação destinada ao «Povo»? que outras formas de participação mais directa e reactiva podemos conceber? Orçamentos participativos? Assembleias de Freguesia e Municipais (sempre às moscas)? É verdade que são os partidos que intermedeiam a participação política (e organizam as listas onde se elegem os representantes às mesmas assembleias, mas também é verdade que não são só os partidos que têm esse beneplácito. Grupos de Cidadãos Independentes podem se organizar e concorrer a eleições municipais. Porque não o fazem de forma mais regular?
(a continuar)

quarta-feira, fevereiro 21, 2007

Reflexão natural


Ricardo,

Realmente Delecroix merece mais alguma reflexão.

Não acho que desacordes das minhas posições, pelo contrário até reforças algumas ideias. Agora, parece é não vemos olho a olho a desconstrução da tríplice aliança «Liberdade – Igualdade - Fraternidade». Para mim só a Liberdade é sujeita de atitude revolucionário.
Tu, quando respondes que Para além da Liberdade, que está conquistada, mas que, repito, não é um dado adquirido, existe a Igualdade. Deve ser esse o propósito. Não me refiro à Igualdade política, que já existe, mas à socio-económica. Não me refiro à Igualdade absoluta, utópica, mas sim à Igualdade possível, no acesso qualificado à Saúde, à Educação, à Justiça e a um emprego seguro e decentemente remunerado. São estas as novas causas. Só depois, infelizmente, será exequível passar à próxima e derradeira fase: a busca de uma verdadeira Fraternidade. Todavia, eu não defendo que façamos revoluções políticas sem mais, nem menos. Penso que devemos tentar resolver os assuntos relacionados com as desigualdades através do sistema e de uma forma gradual. Isto leva-nos à forma como eu encaro o conceito de "revolução" hoje em dia. acrescentas que também a Igualdade e a Fraternidade devem ser alvo de atenção política. Eu sei que não defendes totalmente o carácter revolucionário do acesso à conquista desses direitos, mas então concordamos, não? Só a busca da Liberdade deve ser revolucionária, não? A procura do ideal da Igualdade e da Fraternidade devem ser políticas, e não revolucionárias.

Adiante acrescentas:

2-Em circunstâncias consideradas normais, ou seja, em democracias ocidentais consolidadas, as revoluções só devem ser de cariz político e socio-económico se houver uma ameaça às liberdades das populações, ou se estas já tiverem sido destruídas ou amputadas. Penso que existe um outro tipo de revolução que ainda tem espaço nos sistemas democráticos: a das mentalidades.

Aqui concordamos. E aqui também partilho do teu ímpeto revolucionário. Também eu defendo que são necessárias revoluções nos quadros mentais que sustentam s sociedade portuguesa (e ocidental?). Mas aí já estamos num outro patamar. Já não nos referimos à revolução política – e mesmo social – que nos referíamos anteriormente. Referimo-nos à revolução mental que sedimenta todas as anteriores.

Tem piada, ontem, depois de ter escrito o tal post de diálogo contigo, foi colocar uns ímanes no frigorífico – umas frases soltas sobre política, trazidas dos EUA, que a minha irmã me ofereceu pelo Natal – e fiz esta frase «every generation needs a revolution». Pu-la acreditando nela, e porque acredito que se as revoluções políticas para mim deixaram de fazer sentido (na maioria dos casos), já as revoluções mentais escasseiam. E aí partilhamos a análise, e voltamos aos livros: o papel do intelectual, dos grandes e das pequenas revoluções (é tão importante para mim uma mudança revolucionária nos manuais escolares – na superestrutura, portanto - como uma mudança revolucionária na sala de aula – na infraestrutura).

Mas, e com isto termino, ainda acredito que o político é possível. Ainda acredito que a boa acção política – na gestão da coisa pública, na criação das condições necessárias para a boa vivência social – pode ser revolucionária pelo exemplo. Deixo uma ideia. Lisboa está desgovernada. Totalmente abandonada e desacreditada. Não será possível criar um nova equipa que governe a cidade de forma a ela reganhar o elan que já teve? Não será possível criar um programa e angariar uma equipa que possa, em 10 anos, por Lisboa novamente no caminho da modernidade? Não será possível construir programas políticos que, alicerçados na Liberdade e baseados na Igualdade almejem a Fraternidade? Eu acho que sim. Ou pelo menos assim quero pensar…

terça-feira, fevereiro 20, 2007

A Liberdade Guiando o Povo

Na Casa de Usher, num dos seus últimos textos, o Ricardo Revez deambula sobre um programa que a RTP 2 deu recentemente (e que, curiosamente, também vi na sua parte final) sobre o famoso quadro de Delacroix A Liberdade Guiando o Povo».

Esta pintura, relativa à Revolução de 1830, que substitui Carlos X por Luís Filipe de Orleães (que seria, por sua vez, afastado em 1848 - desta vez por uma República), procura humanizar a revolução, tornando-a mundana, acessível e reconhecível. Nela, na Revolução, é o Povo que se envolve e decide. É a gentalha, o commun people, o petit borguoise que toma armas em mãos e procura interferir directamente com o destino, liderado, idilicamente, apenas pelos ideais-tipo da Liberdade, da Igualdade e da Justiça. Esta mole humana, apenas organizada na ideia, é, muitas vezes, apenas geneticamente reactiva, actua geralmente motivada por razões económicas e políticas. Procura resolver os seus problemas imediatos (maus anos agrícolas, fomes, inflação), mas, na essência luta pela sua Liberdade (política – cívica e económica).
É esta luta pela Liberdade que torna a causa revolucionária universal. Ela torna-se, durante esta primeira fase, apenas destrutiva. Procurava destruir o «Antigo Regime», esse mundo velho aristocrático, por um novo mundo possível, concebido com novas formas políticas – a República. E uma vez garantido o acesso a esta possibilidade construtiva a revolução deixa de fazer sentido. Urge, então, construir um Estado e um sistema político que possibilite a vida em sociedade com a Liberdade e a Justiça como suas premissas. Sou muito mais americano que francês (e percebi-o agora), porque acredito na construção política e não apenas na destruição de sistemas anacrónicos e injustos.
A frequência revolucionária é, então, associada à percepção do alcance das suas medidas, nomeadamente em períodos de indefinição sistémica e estrutural. Foi assim durante todo o século XIX, enquanto o acesso político não era permitido às camadas reivindicativas da população (e apenas a estas – repare-se na história do acesso ao voto das mulheres, ou dos analfabetos).
Concluímos que a luta pela Liberdade é a luta primordial, sem a qual nada se poderá construir. Estamos de acordo com a necessidade revolucionária. Mas, uma vez conquistadas essas liberdades, para onde partir? Se a Liberdade é uma característica comum às lutas revolucionárias do século XIX (a luta pela Liberdade política e cívica), e se hoje é comummente aceite que a alcançámos, quais devem ser as causas revolucionárias de hoje? Deve a causa revolucionária servir algum outro propósito que não seja a busca de Liberdade?
Aí, Ricardo, divergimos. Eu acredito na mudança política, programática e progressista. Acredito que, uma vez construído, deve o sistema político dar respostas às necessidades sociais, políticas e cívicas dos seus cidadãos. Aí só é necessária a Política, não a Revolução.

Referes, Nessa época, quando se queria fazer progredir a civilização, levantavam-se duas ou três dúzias de barricadas na capital de França e passado uns dias o mundo pulava e avançava. Agora, com o gás lacrimogéneo e as balas de borracha, já não dá para mudar seja o que for, a não ser de canal de televisão quando algo não nos agrada.

Isto deixa-nos uma última questão: quais as barricadas que podemos erguer hoje, no início do século XXI? O que deve substituir as pedras da calçada e os barrotes de madeira? Como resistir, como mudar?

Como mudar? Envolvendo-nos. Na Política.

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