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terça-feira, novembro 10, 2009

Generalidades?



Vivi num tempo em que começou a deixar de ser tabu falar de sexo. Por isso, aconteceram tantos eventos sobre sexualidade(s): programas de rádio (com o iniciador Júlio Machado Vaz), livros, artigos de divulgação, nomeadamente em revistas femininas (Elle, Máxima e outras); numa fase posterior, a sexualidade democratizou-se e não havia nenhum número da revista "Maria" e equivalentes que não tivesse uma receitazinha sobre sexo e felicidade.

Mais tarde - e estou a falar de/sobre Portugal - começou a falar-se de género (tradução de gender, na língua inglesa). Primeiro na Academia, depois na Administração Central, posteriormente um pouco por todo o lado. Creio haver, neste momento, falta de democratização do conceito de género, pois fala-se em "casamento de pessoas do mesmo género". Ora, o género não faz parte da nossa identificação - pelo que cada um terá o seu género mas não o tem inscrito no Bilhete de Identidade - é mais plural que o sexo, é construído socialmente, ao longo da vida. Há dois sexos - feminino e masculino - e vários são os géneros possíveis - feminino e masculino, transsexual, transgender, etc, os que se quiserem construir e que se constituem num conjunto categorial aberto (podia acrescentar, desde já, o género andrógeno como género "assumido" por alguém que, tendo os 2 sexos - feminino e masculino - quer continuar a ter os 2 sexos porque se auto-identifica como tal, i.e, tem práticas e representações da sua pessoa enquanto ser andrógeno).

Assim, a questão actual relativa ao casamento nada tem a ver com o género. Nenhuma lei proibe o casamento entre um/a transsexual e um/a transgender a não ser que, no que respeita ao sexo - biológico e identificador - ambos/as coincidam no mesmo sexo, ie., ambos sejam do sexo masculino ou ambas sejam do sexo feminino.

O que as propostas de legislação pretendem é a anulação da condição de pertença identificatória a sexos diferentes para o acesso ao casamento civil. Trata-se, por conseguinte, de legislar sobre o "casamento entre duas pessoas do mesmo sexo".

Brincando com as palavras no tempo: se outrora o sexo foi democratizado através de programas sobre sexualidade(s), é tempo de democratizar o género, com programas de . . . generalidades.

Ilustrando: lá em cima, estão os dois símbolos relativos a sexo: são dois, o feminino e o masculino, apenas dois. Aqui em baixo está uma bandeira do arco-íris (a bandeira L.G.B.T.) que mostra ser o género possível numa puralidade de cores, todas as que existem no arco-íris e, se calhar, as que se inventarem entre cada duas cores, tons e meio-tons.

sábado, novembro 07, 2009

DA DESNECESSIDADE DA QUECA HETEROSSEXUAL PARA A PROCRIAÇÃO OU TERÁ A QUECA HETEROSSEXUAL OS DIAS CONTADOS?


Gostava de trazer à reflexão uma questão [..]. Fala-se no totalitarismo do binarismo sexual que alguns pretendem ver abolido. Ou seja, deixaria de haver dois sexos (sim dois sexos, o feminino e o masculino e não dois géneros) os que existem biologicamente, na natureza sexuada.




Pensando alto:

1. Não é possível alterar a biologia sexuada: há 2 sexos, 2, nunca 3 e obviamente nunca apenas 1.

2. Os transsexuais terão os 2 sexos em simultâneo.

3. Esse facto não provoca a existência de um 3º sexo.

4. O que me parece existirem é pessoas que têm identidades transgénero. E têm esse direito, quer tenham dois sexos nos seus corpos, quer não tenham, quer sejam "operados" quer não sejam.

5. Ao abolir a categoria sexo, ficaria automaticamente resolvida a questão do casamento entre pessoas do mesmo sexo.

6. Assim, seríamos todos iguais :-( .

7. A reivindicação que anda por aí pede a despatologização do que é transgender. Isto parece-me errado pois:

7.1. é reivindicado simultâneamente o direito a ser-se operado/a; ora um cirurgião opera o que é patológico, sejam cancros, simples sinais de acne ou um nariz grande demais;
7.2. creio que grassa pelos media uma enorme confusão entre sexo e género; repito: só há biologicamente 2 sexos, feminino e masculino; quanto ao género, esse sim, é construído socialmente, historicamente e com relativa autonomia face à reconstrução biológica (que pode ter sido praticada ou não).

8. A reivindicação da abolição do sexo - a triunfar - faria com que este deixasse de fazer parte da nossa identificação.

Ao mesmo tempo que acontece este fenómeno de desejo de anulação de uma categoria biológica diferenciadora - o sexo - acontecem fenómenos de categorizações identitárias outras que não a biológica. Pense-se nas identidades comunitárias (por pertença religiosa ou étnica, por práticas de consumo, modos de vida, como por exemplo "muslim", freak, Tutis e Hutzus ... fumadores de marijuana, frequentadores do restaurante eleven, "malta da praia da Consolação", "orgulhosos da sua negritude" . . . ).

Faz pensar um bocado, não é? Eu deixaria de ser mulher e passaria a ser um ser humano biologicamente não diferenciado :-( . As lojas de roupas deixariam de ser para mulheres ou para homens, passariam a ser diferenciadas apenas de acordo com as múltiplas tribos em constante mutação. As pessoas continuarão sempre a procurar uma diferença que é, também, uma forma de pertença. É uma característica do ser humano em sociedade construir uma persona identificadora do indivíduo perante o(s) seu(s) grupo(s) de pertença e perante os outros grupos. O orgulho negro, por exemplo, não se traduz apenas pela cor da pele mas também - e sobretudo - pelo uso de vestes e acessórios específicos, pelo amor às ideias de Leopold Senghor, pelo apreço às músicas de África, etc.

Bem sei que a reprodução biológica já não é o que era: a queca heterossexual passou a ser dispensada, para fins de procriação, pois há laboratórios, há técnicas in vitro, barrigas de aluguer e bancos de esperma. Parece-me assustadora esta indústria de produção de seres humanos quando há tantos seres humanos produzidos e abandonados.

Fico pelo apontar de tópicos.

Bora pensar em conjunto sobre o assunto?

SEJAM FELIZES NESTE F.D.S!

Mais um tópico "afim" para reflectir: há quem defenda a desnecessidade da identificação do estado civil. A acontecer, também se tornaria desnecessária a reivindicação do direito ao casamento, por parte da comunidade LGBT. Só que o contrato de casamento é mais do que a união entre duas pessoas, pois trata-se de um contrato, de uma aliança entre duas famílias. Voltarei ao tema.


publiquei um curto comment equivalente a este post num outro blog

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