Mostrar mensagens com a etiqueta Guernica. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Guernica. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, julho 10, 2008

O Quadro Sem Exposição

Vi-o em Julho de 2008, em Viena, numa merecida exposição individual. É de OK. Intitula-se "Salvem as Crianças Bascas", data de 1937.

É um Grito.

OK não estava, ao invés de Pablo Picasso, do lado certo da História, para fazer história com a sua Guernica. Não estava em Paris, centro da arte. Não era espanhol, centro da guerra civil e da forte e fugidia esperança das várias esquerdas. Não era cubista-abstracto. Não fez um quadro mas um cartaz. Não foi exibido na Expo de Paris, muito menos embalado por um coro de intelectuais, qual tragédia grega.

OK - Oskar Kokoshka - era modernista, expressionista e defensor do figurativismo (a única via pedagógica, cria ele, qual neo-neo-realista). No quadro sobre o bombardeamento de Guernica, pintou uma realidade concreta e única e não símbolos universalizantes: uma mãe e uma criança, um assassino avião de guerra alemão (esboçado de modo a invocar um brinquedo de lata), uma ponte, uma cruz quebrada e, ao fundo, restos de uma aldeia bombardeada, sem luta nem resistência. Nasceu na Austria, falava alemão. Pintava o que ninguém via com um pé firme no que todos viam. Criou uma "Escola de Ver" não académica, aberta; inclusiva, dir-se-ia hoje. De um retrato, rejeitado por falta de "verosimelhança", feito por encomenda, disse pintar não o sujeito mas o que lhe ia no âmago, para lá da pele (para cá da pele). Procurava sentidos, para re-ligar. A política da sua arte levou-o a mostrar, em simultâneo, os horrores do fascismo e do estalinismo. Esta Guernica era, visivelmente, um cartaz de propaganda política. Contra os nazis, claro.

Fez parte da lista dos artistas degenerados, o que poderia ter sido um adjuvante para uma narrativa a terminar numa exposição, mundial, desta Guernica, mas ... não foi suficiente. Ele era feio, solitário, desajeitado, um pouco (muito? tudo?) doido. Não tinha salero nem falava francês no quotidiano. Não incarnava O Amante, pois só se lhe conhecem duas mulheres, Alma (que o deixou e endoidou) e Olga, espaçadas entre si no tempo e no espaço. Era figurativista, après la lettre. Não viria a ler o Libé no Café Fiore ... frequentara, isso sim, o Café Românico, em Weimar.

Era poeta.

Na sua Guernica havia mensagens a mais, demasiado situadas e sofredoras (femininas, numa revolução de machos?): a cruz católica derrubada, a mãe e a criança, em primeiro plano, a aldeia, em plano longínquo. Não poderia nunca tornar-se num Ícone do Mundo do século XX. A sua Guernica-sem-nome-próprio, sem agónicos cavalos viris em post-luta, continha mensagens sociais a menos e apresentava uma fraca tensão dramática, social: expressava, simplesmente, sem conotações metafóricas, a dor humana e familiar, rasgada e impotente, numa povoação-sem-nome, fora de Madrid, nos montes. Não encontrei reproduções na net.

Era O Grito.

Nota: era o grito, aquele, concreto e situado, saído de dentro para fora da voz, pintado de fora para dentro da pele; e, hélàs, o que conta, no discurso político, é, não um grito, mas uma metáfora, diria Lakoff; abordarei este tema noutro post, sobre modos de fazer propaganda. Aliás, marketing institucional.

sábado, maio 17, 2008

O Quadro de Uma Exposição


O Quadro

Guernica, 1937.

A Exposição

Abre a 25 de Maio de 1937 em Paris. Demorou 7 anos a preparar, tendo por lema a exaltação da Técnica. Dois pavilhões monumentais desafiavam-se, num face a face mudo de palavras, pleno de ódios, o da URSS e o da Germânia. Respirando modernidade, não passavam despercebidos o pavilhão finlandês, de Alvaar Alto, em madeira, pela sua arquitectura, e o pavilhão espanhol, lhano e discreto albergue do quadro Guernica.

O Acontecimento

O bombardeamento de Guernica, em 1937, numa Segunda feira, 26 de Abril, dia de mercado, por aviões alemães, destruíu 70% da aldeia basca e dizimou 1/3 da população. Só a 24 de Abril de 1999, o Parlamento alemão reconheceria a autoria do massacre como tendo sido obra das forças alemãs nazis (a Legião Condor).

O Pintor

Pablo Picasso, de origem espanhola, exilado em Paris. Pai do cubismo. Em 1937 atravessava uma fase conturbada, a nível pessoal e de trabalho, sentindo faltar-lhe a inspiração. Pinta, então, Guernica, que marcará o princípio de uma nova fase.


O Pavilhão Espanhol e os Compagnons Artistas

Na entrada do pavilhão espanhol, um mural fotográfico de soldados republicanos dava o tom político de um governo que lutava por uma Espanha livre. Paul Éluard escreveu um poema para acompanhar o quadro Guernica, Juan Miró pintou um quadro representando armas em riste, Alexander Calder apresentou, sob a forma de “mobile”, uma fonte pintada de vermelho, em alusão à República de Espanha. Os documentários de Luis Buñuel - Madrid 36 – e de Joris Ivens e Ernest HemingwayTierra de España – marcavam a actualidade. O clima artístico de Féerie, francesa, de Paris, da Esquerda internacional, envolvia o clima de Festa brava ibérica, dorida, sangrenta, de verdade e morte.


O Mundo Político e a Arte

Em França, o Front Populaire, liderado por Léon Blum, chegou ao poder nas eleições legislativas de Junho de 1936, três meses após a vitória da Frente Popular em Espanha, e na sequência de uma Greve Geral francesa (Maio/Junho), mantendo-se durante um ano. Uma das suas naturais divisas seria o apoio à causa republicana espanhola. O clima de euforia está sintetizado na frase de Marceau Pivert (professor e sindicalista) "Tout est possible”. Ironicamente, o Front viria a auto-dissolver-se no Outono de 1938, na sequência de divergências internas sobre a Guerra Civil Espanhola. O provérbio francês "Faire des châteaux en Espagne" parece cumprir-se como uma profecia.

Na Alemanha, em 1937, os Nazis expurgaram os Museus de quadros que consideraram "degenerados"; 650 obras foram especialmente seleccionadas para uma exposição "pedagógica" sobre “Arte Degenerada”, de entre as quais trabalhos de Wassily Kandinsky e de Marc Chagall. Neste mesmo ano, a já consagrada pintura de Kandinsky é apresentada no Jeu de Paume, na exposição “Origines et Developpement de l´Art Internationale Indépendant”. De origem russa, este criador repartiu a sua longa e plural actividade por Munich até 1914, pela URSS até 1921, por Weimar, no movimento Bauhaus, até 1933 e, posteriormente, por França.


A Segunda Grande Guerra

Começaria dois anos depois de Guernica e depois da derrota dos Republicanos, pelo Generalíssimo Franco, de seu nome Francisco, da Galiza. O quadro é exilado para os E.U.A., por ordem do artista, “até que Espanha seja uma democracia”, o que viria a acontecer na década de 80, ironicamente sob uma Constituição democrática mas não republicana. A dor, contida no quadro e nas terras de Espanha, espalhara-se, de 1939 até 1945, pela Europa fratricida, rasgada em duas. E foram os nossos irmãos do Novo Mundo que vieram apoiar a Europa democrática: soldados americanos e, especificamente na Holanda, soldados canadianos, desembarcaram ao longo da costa marítima europeia e ajudaram o Velho Continente a conquistar a paz.


O quadro das utopias

Todo o contexto social e político que antecedeu a obra – o feio desabrochar do nazismo e dos fascismos espanhol, italiano e português, por um lado, e as breves concretizações de utopias em Espanha e em França - e que lhe sucedeu, por longos e negros anos – a invasão da China pelo Japão (em Julho de 1937), a II Grande Guerra, a rápida ocupação da Austria, da Checoslováquia e de outros países até atingir a França, a visibilidade e as consequências do Holocausto, as ditaduras franquista e salazarista - contribuiu, por razões opostas mas por um único princípio, para que Guernica se tornasse no ícone de liberdade e de democracia, numa acepção amplamente partilhada, de anti-fascismo, de resistência, de denúncia das injustiças das Guerras que matam, ferem e exilam pessoas e povos, destroem aldeias e obras artísticas, e das efémeras utopias que feericamente proclamam “Tout est possible”.

Os elementos do quadro apontam para um imaginário complexo, onde estão presentes a força masculina e impetuosa do touro e a resistência feminina, telúrica e persistente, a luz e as trevas, a hispanidade exótica, quixotesca, mítica e romântica, o sofrimento e a força revolucionária de libertação de um povo, a Festa (a festa brava; a Festa política e social). O touro pode ser a própria Espanha que, olhada no mapa, com os seus relevos orográficos, se assemelha a "una vieja piel de toro" se não mesmo o Touro-Europa ferida/o pelo Cavalo da Guerra. Figurativo, o mural permite leituras múltiplas e controversas de cada uma e do conjunto das imagens, retorcidas pela perspectiva cubista. A hispanidade de 36-39, viria a cumprir, segundo alguns, a revolução, pela mão de ferro do galego Castro e pelo punho cerrado do argentino Che, reforçando o poder simbólico de Guernica, em Festa e em sangue. À Festa seria acrescentado o mitema da sensualidade da música cubana e reforçado o mitema do romantismo que se bate contra moinhos de vento (em África, na América do Sul) na figura de um Che, belo e jovem, de boina basca.

Guernica é universalmente legível, intrinsecamente e extrinsecamente, a partir de um ideário de liberdade (comungado ou contestado) e actualizada por todas e por cada uma das revoluções ocorridas ao longo de 70 anos. Por isso, se ao princípio foi apenas o Quadro de Uma Exposição, de uma luta política, transformar-se-ia no Quadro de um Século que se quis livre, o século XX, e que experimentou, primeiro pela palavra, depois concretamente, na terra e na carne, os mais diversos modelos de organização social e política, em várias partes do Mundo. Guernica palavra apresenta uma relativa homofonia com a palavra Guerra, dita em várias línguas românicas, cristalizando-as, lado a lado, no inconsciente colectivo. As Guerras continuam e Guernica mantém-se símbolo vivo. Guernica aldeia simbolizou, durante os longos anos da ditadura fascista espanhola, a guerrilha de libertação (basca e todas as outras) contra os totalitarismos. A guerrilha basca deixou de ter sentido. A Experiência social continua. “Tout est possible”?

A nenhum outro quadro, senão a "Guernica", teria sido possível representar, por condensação, como nos sonhos (segundo Freud) o século XX.

"A" Guernica, como familiarmente é designado, reifica o ideário de libertação e justiça do século XX e as atrocidades cometidas contra esse ideário ou em nome desse ideário.




Succession, Wassily Kandinsky, 1935 ...

sexta-feira, abril 27, 2007

70 Anos

Fez ontem (26 de Abril) 70 anos.

Em 2007 Guernica, Dresden, Hiroxima, Londres unem-se num compromisso de paz, procurando lembrar o que de melhor tem o Homem.

Nas décadas de 30/40 do século XX, partilharam a destruição, a morte, a barbárie do massacre militar a alvos civis. Conhecemos aí a pior face do Homem, a que o mostra como um louco que perante precipício do Mal dá um passo adiante.

Podemos pensar que hoje estas fotos não se repetirão, em território «civilizado». Mas, estaremos mesmo livres de novas Guernicas? Depende onde vivemos, não é? Se formos jugoslavos, sudaneses, somalis ou tchetchenos ainda conseguiremos partilhar a visão optimista da humanidade? Tenho dúvidas, muitas dúvidas…

(obrigado Pedro pelas fotos)


Pesquisar neste blogue