quinta-feira, fevereiro 21, 2008

Pensar livremente sobre as “secret-agendas” ou conquistar “o animal que espeta os cornos no destino” (1 de 2)


Pensar livremente sobre as “secret-agendas” ou conquistar “o animal que espeta os cornos no destino”, por Vera Santana (1 de 2)


As feministas e as académicas estudiosas do género falam em “secret-agendas” para designar um conjunto de posições e disposições sociais (Bourdieu) dificultadoras do acesso das mulheres a lugares de topo, em vários (ou quase todos?) os campos. Assim, no campo da música erudita ou clássica, são poucas as maestrinas, as coordenadoras de naipes de instrumentos tradicionalmente masculinos, as compositoras, etc. Alma Mahler queixava-se de, por Gustav, ter deixado as suas composições musicais na gaveta. Mas também revela, na biografia que escreve sobre o ex-marido, que este, lidas as composições, as elogiava. Se ambas as afirmações são verdadeiras, e assim o cremos, não terão deixado de induzir à Alma - como comunicação paradoxal que são (Bateson) - perplexidade e imobilismo no campo da música. Imobilismo que Alma quebrou das maneiras que quis, soube e pôde, amando, viajando e escrevendo.

Os efeitos das “secret-agendas” fazem-se sentir nos lugares de poder, de decisão, nomeadamente nos cargos políticos e, do mesmo modo, nos cargos das estruturas sindicais portuguesas[1], como se pode ver pelas taxas de feminização das organizações sindicais, por nível de estrutura sindical e por tendência sindical, sintetizadas no quadro cuja leitura nos dá a percepção dos lugares de poder onde os efeitos institucionais são mais intensos.

Taxas globais de feminização das organizações sindicais, por nível de estrutura sindical, incluindo os cargos de topo – e por tendência sindical

Sindicatos pluridistritais
CGTP - 41 % / 59%
UGT - 58% / 42%

Sindicatos não pluridistritais
CGTP - 34% / 66%
UGT - 36% / 54%

Federações
CGTP - 24% / 76%
UGT - 40% / 60%

Uniões
CGTP - 23,5% / 75,5%
UGT - sem dados

Cúpulas (Centrais Sindicais)
CGTP - 22,6% / 77,4%
UGT - 22% / 88%

Topo (Presidentes / Secretários-Gerais)
CGTP - 11% / 89%
UGT - 14% / 86%

São-no “à direita”, nos cargos de topo - Presidentes ou Secretários-Gerais - onde as mulheres se encontram numa enorme minoria (entre 11% e 19%). No corpo de dirigentes dos sindicatos pluridistritais a feminização é muito significativa (entre 41% e 58%). Nos restantes sindicatos, a feminização do poder é ainda significativa (entre 34% e 46%) mas vai perdendo força à medida que se caminha das bases para os níveis intermédios de poder sindical – as federações - feminizadas dentro de um conceito politicamente correcto, entre 24% e 40%. A feminização das cúpulas sindicais é a que se apresenta como a mais estrutural porque, ao contrário das taxas de feminização nos restantes cargos sindicais, diferenciados em função da Central Sindical, é a que parece ser relativamente mais independente da Central Sindical porque constante: 22%.

Ora o conceito de “secret-agendas” contém um parâmetro de “segredo”. Segredo de quê, face a quê, perante quem? O segredo reside no desconhecimento que os actores e as actrizes sociais têm das causas e dos efeitos das acções sociais individuais e colectivas. Não se trata de “teorias da conspiração” mas sim de algo não-revelado porque fortemente inscrito nas instituições materiais e simbólicas. Sabemos que as instituições servem para facilitar o agir colectivo com a finalidade de manter a coesão social. Por hábito, não passamos a vida a interrogar as instituições; no quotidiano, não temos tempo nem para questionar as rotinas, quanto mais as instituições. A rotina -duche-vestir o bebé-tirar o jantar do congelador-vestir- entrar no carro – deixar o bebé no infantário- picar o ponto- não permite interrogações sobre a sequência que construímos para, precisamente, podermos ir pensando noutras coisas quotidianas menos rotineiras (pagar a prestação da casa, levar o carro à oficina, telefonar para o Lar da Avó, etc.). Pensar sobre as instituições, é algo que fica por fazer. Durante o dia, recebem-se umas piadas políticas via email que consolam porque cristalizam o mal-estar impotente. Sempre fomos um país criador de anedotas cuja finalidade é, apenas, a de destapar a tampa para deixar sair um pouco de vapor sem que a pressão estoure a panela ou a vida. Ao fim do dia repetem-se as rotinas, fecha-se a porta, olha-se para a televisão, trocam-se ternuras.

A sociedade continua coesa porque “tudo está no seu lugar”, a tampa vai deixando sair os vapores. Aos fins-de-semana discute-se entre amigos e amigas e família. Vê-se futebol na TV ou no estádio. Discute-se futebol, discutem-se também as imperfeições gritantes do processo democrático (as injustiças sociais e as corrupções gigantes) discute-se o nosso processo, o português, o que nos está mais perto e é mais familiar. Discutem-se as pequenas quezílias, nomeadamente a partilha das tarefas domésticas. Discutem-se, portanto, as instituições – política, família, etc. – o seu funcionamento, os seus agentes de poder, as suas mudanças. A discussão vai desvendando razões e causas das macro e das micro imperfeições. Sem dúvidas que as micro-imperfeições têm vindo a ser ultrapassadas porque dependem em certa medida da acção directa dos actores e das actrizes sociais: muitos pais-homens mudam fraldas, fazem o jantar, deitam as crianças.

A pouco e pouco, e também por via dos media, alguns segredos das agendas dos poderes intra-familiares vão sendo revelados e regulados, nomeadamente por quadros jurídicos. A nível macro-institucional, alguns grupos vão implementando tímidas medidas de paridade, oferecendo às mulheres quotas situadas entre 25% e 35%, não apenas porque os homens sejam “naturalmente” apegados ao poder mas sobretudo porque têm uma enorme sinapse que liga o neurónio do poder ao neurónio da masculinidade. E nós, mulheres, temos sinapses equivalentes, quando nos deliciamos a comprar roupinhas cor-de-rosa para uma bebé recém-nascida ou um lindíssimo vestido rodado e com um maravilhoso laço para a festa de aniversário da menina que já não é bebé e um pouco gracioso fatinho de marujo para o bebé menino e um livro de divulgação científica para o rapazinho que cresceu.

[1] Retirado de “Género e Estruturas Sindicais”, coordenado por Vera Santana, FCT, POCTI, SOC/2001; o trabalho está para publicação, no Ministério do Trabalho e da Solidariedade Social.
Vera Santana
Socióloga e socialista
Lisboa, 20 de Fevereiro de 2008

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