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domingo, abril 19, 2009

PERDOAR OU ROSNAR, EIS A QUESTÃO!

Perdoar é, à letra, cancelar (do grego). O nosso laicismo das Luzes foi moldando secularmente o perdão em formas negativas, pejorativas e negras (!) e enterrou-o bem fundo na gaveta das coisas velhas e inúteis.

Cancelar o ódio, matar o ódio é dar espaço à tranquilidade. É o maior sinal de maturidade individual ou colectiva. Perdoar faz crescer aquele que perdoa (no seu íntimo, mesmo que o Outro, o "presumível" ofensor, o não saiba). Não significa esquecer nem enterrar a memória, mas sim atribuir-lhe um espaço racional, justo e isento de paixões negativas (vingança servida quente ou fria, ranger de dentes ou gozo de pobre e triste palhaço que atira sapatos a imagens virtuais, espalha intrigas e constrói maledicências improvadas, etc.)

O nosso mundo quis-se, desde meados do século passado, eternamente juvenil e aprendeu, com força, a não perdoar, logo a não crescer. Os ódios foram crescendo e acumulando-se. Muitas pessoas ficaram para-sempre infantes Peter-Pans com raivinhas nos dentes-de-leite e nunca terão caninos capazes de "espetar os cornos no destino" (como diria a Natália Correia). Rosnam por passatempo, num jogo pueril sem objectivos determinados, rosnam contra "Eles", contra "O poder", num exercício de contas-de-um-rosário-sem-fim, para exorcizarem as suas próprias maldades pessoais, as suas incongruências humanas, os seus pecadilhos.

A um nível colectivo, o ódio instalou-se entre Cuba e os USA durante os últimos 50 anos, muito para além da Baía dos Porcos, por todo o mar salgado. Obama estendeu a mão em Abril de 2009. Os Castros de Cuba aceitaram. It´s the beginning of something. Mas o ranger de dentes, embora mais surdo que antes, continua a fazer-se ouvir. Proclama a necessidade do cancelamento do embargo a Cuba, de um lado, assobia fininho e faz orelhas moucas, do outro.

O mesmo se passa no Médio Oriente. A Palestina rosna quando as Nações pedem aos seus dirigentes o reconhecimento do Estado de Israel. Sem reconhecer a existência do Outro não há possibilidades de comunicação. Regra básica da Pragmática da Comunicação (Watzlavick). Israel contra-rosna e elege dirigentes de extrema-direita.

Ora bem, depois de ter ganho algum mundo e de ter feito algumas leituras, acabei preferindo os Gatos aos Cães. Parece que estou a desconversar mas não. É que os Gatos não rosnam e, acima de tudo, não há Gatos de Fila. Quando se chateiam, partem para "outra", na "maior", "numa boa", virando as costas, tout court, com um ar "cool" e sem ressentimentos. Livres gatos! De facto, a Liberdade de Espírito e os Gatos e, ainda, a Literatura, andaram sempre de mãos dadas. Veja-se Colette, Mark Twain, Doris Lessing e tantos outros. Mas este tema fica para um próximo post . . . Para já, aqui deixo o simpático Gato das Botas - vindo directamente do nosso imaginário infantil - ser livre, cavaleiro solitário e pronto para lutar honestamente, se preciso for.

quinta-feira, janeiro 29, 2009

New York, New York



Aprender é mesmo uma "coisa" lenta. O resto, o que é rápido, será fast-education, treino ou o que se quiser chamar-lhe, nomeadamente hamburguers para enganar a fome. Há cerca de dois anos e meio estive em Manhattan, com os "eyes wide open"; vi museus e exposições, passeei, de barco no Rio Hudson, e a pé por Central Park, frequentei um pouco do ambiente de jazz, vivi Little Italy e China Town, estive na Igreja de Saint Patrick, bebi poemas e prosas norte-americanas e algum whiskey from Tennessee (um dos Estados mais pobres). Voltei, após 10 dias, à minha Europa, com uma enorme incompreensão sobre as gentes e os modos de vida da grande maçã e uma porta alta entreaberta por Walt Whitmann e o mesmo fascínio cego, cheio de repulsa e de admiração emotivas, que me levara ao lado de lá do Atlântico.

Com o tempo e ao sabor do vento fui conhecendo os EUA, nomeadamente a "política", explicada pelos meus queridos compagnons Rui Pedro e Diogo, em Viena. Apreendi, creio, algumas razões para a forte presença religiosa naquele povo: perante um enorme continente desconhecido, agreste e cheio de canyons, por conquistar, só uma força atribuída a um deus poderia justificar tormentos, afastamentos, torturas e secessões; perante culturas tão diversas, a coesão social cimentou-se na religião, que re-liga o que está disjunto. Da esperança nasceram os divinos Espirituais Negros, tal como do trabalho-escravo, os blues.

Esta tese é minha e espero vê-la rebatida, aqui ou algures... A contra-prova é observável nos modos de viver e de ser na Europa. Ser não religioso é um privilégio europeu conquistado pela História: as guerras fratricidas que nos edificaram como nações e nos pacificaram, o Iluminismo reflexivo, a Revolução Francesa e a Comuna de Paris que nos trouxeram experiências, mesmo que incompletas, de liberdade e igualdade, as heranças culturais da Pérsia, da China, do Japão, do mundo judeu e árabe, o Cristianismo - e as Cruzadas contra os "Infiéis" - o Protestantismo e o coevo desenvolvimento do industrialismo, as lutas dos Sindicatos por condições dignas para os trabalhadores - tais como durações de trabalho humanas e estabilidade de emprego - foram moldando uma forma de estar na qual os deuses, sobretudo os da Cristandade, não têm de estar presentes.

Tal como nos EUA, as religiosidades têm uma forte persistência em todo o continente americano. Nas máscaras mortuárias do México, no profundo cristinianismo brasileiro, nas religiões-fusão de Cuba, com os seus deuses semi-africanos e semi-católicos que tão bem coexistiram com Fidel nos 40 anos de Revolução Cubana. Quando proibidas, as religiões não inexistem, entram na clandestinidade ou tomam formas admissíveis para os poderes em exercício e emergem ao mais ínfimo sinal de abertura política. As Razões para a força do não-Racional são explicáveis pela antropologia.

E, voltando à minha relação complexa com os EUA, eis que, last but not least, no princípio deste ano chega Barack Hussein Obama ao poder. E com ele, um vento fresco que desejo que não passe e que me faz sentir o pulsar optimista e empreendedor de um povo feito de povos e de estados.

Um dia voltarei a Manhattan para cumprir o que me faltou: atravessar a pé a Ponte de Brooklyn e talvez viver o Bronx por dentro.

Para aprender é preciso ter curiosidade, Mestre(s) e tempo e deixar este esculpir o conhecimento cimentado a partir da informação. Do conhecimento ao Saber vai um passo de gigante, uma travessia para o outro lado. Um dia ...

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